O silêncio de um time

Lucarelli Brasil EUA Liga Mundial 2014 - Divulgação FIVB

Há uma diferença fundamental entre as Ligas Mundiais de Vôlei que são disputadas em ano de Campeonato Mundial – como a que terminou neste domingo, dia 20, com o segundo título dos Estados Unidos na sua história – e as que não são. As duas têm o mesmo nome, possuem a mesma importância em uma perspectiva histórica e garantem uma festa de mesma intensidade para o país campeão, mas apenas as que pertencem ao primeiro grupo são determinantes para a formação final de uma seleção que está de olho no torneio mais importante do calendário. É preciso ter isso em mente na hora de analisar a participação da Seleção Brasileira na busca fracassada pelo seu 10º título, o que lhe garantiu o terceiro vice-campeonato nas últimas quatro edições, depois de oito canecos em dez (2001 a 2010).

Mais do que a certeza de uma geração que atravessou com mais dificuldade do que as anteriores o seu processo de renovação – até pela gigantesca capacidade que as outras tinham -, o Brasil tinha as dúvidas de um time que precisava acomodar as suas peças de modo satisfatório e em alto nível competitivo. Há jogadores inegavelmente capazes, mas há também carências igualmente inegáveis na formação da equipe.

Não são todos os titulares que possuem peças de nível técnico semelhante para reposição, não são todos os que atravessam um grande momento técnico e tampouco são todos os que estão nas suas melhores condições físicas. Todos esses problemas foram trazidos para o início da 25ª edição da Liga Mundial, e todos eles, que não permitiam o conhecimento de uma base titular realmente confiável para a seleção, também preocupavam para o Campeonato Mundial, em setembro, na Polônia. Enorme parte da explicação para um desempenho instável, que quase custou a vaga na fase final, está neste cenário.

De todo modo, é necessário avaliar o crescimento do time – que foi, de fato, se transformando em um time – durante a competição. À medida em que os brasileiros foram dependendo menos de suas individualidades, deixando realçar com mais naturalidade o conjunto, a palavra “sucesso” foi se aproximando dos comandados por Bernardinho. Com esse entrosamento, as capacidades individuais dos atletas tornaram-se diferenciais em busca do triunfo, e não a única maneira para ele acontecer.

Nas semifinais, o Brasil deixou para trás – e com autoridade – os donos da casa, que haviam atropelado os Estados Unidos e a Austrália no seu lado da fase final. No set inicial, 25 a 11, e com o fato de o espetacular Zaytsev ter passado em branco, só marcando o seu primeiro ponto em meados da segunda parcial. Definitivamente, era um Brasil mais sólido, e que protagonizava a sua mais incrível atuação no torneio. As ações se equilibraram um pouco mais a partir dali, mas nada o bastante para evitar um incontestável 3 a 0 sobre os italianos. Os garotos, naquele instante, calaram Florença.

Diante dos EUA, porém, o cenário não foi o mesmo. Em vez de calarem, os brasileiros foram calados. Assim como aconteceu nos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles, e de 2008, em Pequim, os norte-americanos foram superiores e sagraram-se campeões, negando-nos o gostinho de superá-los em uma decisão. Quase todos os 9 mil lugares do Ginásio Nelson Mandela estavam ocupados, e tudo o que foi visto em quadra, após dois belos sets iniciais da Seleção Brasileira, que perdeu um e venceu o outro, foi um espetáculo de volume de jogo, competência nos saques – tanto flutuantes quanto forçados – e de concentração dos campeões.

“Eles defendiam todas as bolas. Elas batiam, rebatiam, e de algum modo voltavam para o nosso lado. Acredito que perdemos um pouco a paciência com isso”, admitiu o central Éder, após o confronto. Esse foi um dos motivos. E o principal residiu nos assombrosos desempenhos de nomes como Sander, que acumulou 24 pontos no duelo, Matt Anderson, que pontuou apenas uma vez menos do que o melhor ponteiro da Liga, e o central David Lee, que, além de ter rendido como nunca, ainda reduziu consideravelmente o poderio de Lucão.

De qualquer maneira, apesar de mais um adiamento do decacampeonato brasileiro, o saldo é mais positivo do que negativo. A construção de um jogo confiável para o Campeonato Mundial teve o seu ritmo acelerado, três brasileiros entraram para a seleção do torneio (o ponteiro Lucarelli, o central Lucão e o oposto Wallace) e a frustração devido a uma nova derrota em finais pertenceu a um time, e não a um punhado de ótimos jogadores – que era justamente o que os primeiros passos turbulentos sinalizavam que aconteceria. Para a disputa que começará em setembro, em terras polonesas, o fato de o silêncio ser coletivo é um belo sinal. O tetra mundial pode estar a caminho.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Divulgação/FIVB

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