O golpe final

Mario Gotze Alemanha Argentina Final Copa do Mundo 2014 - Victor R Caivano AP

1 – Iludidos estavam todos aqueles que pensaram que, aos 42 minutos do segundo tempo, havia acabado o pesadelo dos adversários da Alemanha, a seleção que mais forte chegou à grande decisão do mais importante torneio futebolístico do planeta. Naquele momento, sob os olhos de 74.738 pessoas, o maior artilheiro da história das Copas deixava o gramado do Maracanã sem ter balançado as redes. A sua contagem estacionou nos espetaculares 16 gols. Nada, porém, que o impedisse de dar o seu golpe final.

2 – Em seu lugar, entrou Mario Götze, a fim de minimizar o abatimento físico que era aparente na equipe alemã após a metade da segunda etapa. A formação com Schürrle pela esquerda – tentando cavar espaços pra cima de Lahm e Boateng, ambos de estupenda atuação -, Klose por dentro e Müller pelo outro lado, centralizando conforme o seu instinto, havia se esgotado. O ritmo do duelo já não era mais tão intenso quanto havia sido nos 15 minutos finais do primeiro tempo, instante em que o canhoto do Chelsea, que cruzou para o gol, entrou na vaga do jovem Kramer, que levou a pior em um lance acidental.

3 – No fim do confronto, prestes a entrar nos 30 minutos derradeiros, era essencial alguém com sangue novo e capacidade para alterar panoramas. E o meia-atacante alemão, que completou 22 anos poucos dias antes do início do torneio, foi a peça que completou o quebra-cabeça de Joachim Löw. Com um domínio esplendoroso e um arremate certeiro, o camisa 19 entrou para a galeria de maiores heróis de seu país. Bastaram dois toques para que, aos 7 minutos da etapa final da prorrogação, o jovem talento passasse a ser amado por uma nação perdidamente apaixonada por futebol.

4 – Antes do momento mágico tomar conta dos que vestiam branco no Maracanã, as ações haviam sido minuciosamente calculadas por ambos os lados. Com as cartas na mesa, a certeza de que o cenário imaginado se concretizaria: a Alemanha com a bola, tentando envolver os portenhos com uma troca de passe rápida, e a Argentina mais retraída, fechando bem os espaços e em busca do contra-ataque mortal.

5 – Sem uma atuação plena de Kroos, desprovido do auxílio de Khedira, o seu grande companheiro nas duas últimas partidas – a vitória segura diante de uma França surpreendentemente madura, e o massacre contra o Brasil -, os europeus precisaram recorrer a outros meios para alcançar os mesmos objetivos. Primeiro com Schweinsteiger, depois com Lahm, mas ainda longe da qualidade de gerar jogo que o melhor meio-campista do campeonato distribuiu durante quase todos os segundos em que esteve em campo até a finalíssima.

6 – Lideradas por um Mascherano soberbo, de botes precisos e decisões corretas quando em apuros, as duas linhas de quatro de Sabella foram cruéis para as pretensões do esquadrão germânico. Sempre pela direita, ora com Lavezzi, ora com Messi, ou até mesmo com Zabaleta, a Argentina por pouco não vazou o excepcional Neuer às custas da lentidão de Höwedes, lateral-esquerdo durante toda a Copa.

7 – Os planos azul e branco, no entanto, também não estavam muito bem solidificados. A ausência de Di María era extremamente inoportuna, e não apenas pela inexistência de sua canhota – tão lamentável quanto isso foi perceber como faltaram diálogos às tentativas de Messi, que se viu sem um sócio de nível semelhante para desbravar o território alemão da maneira que deveria.

8 – A falta de potência dos demais membros do ataque sul-americano, como Higuaín e Agüero, foi uma enorme lombada nas ambições da equipe. Demorou para que o desempenho de Lavezzi alcançasse o estágio ideal, e não aconteceu no tempo correto, também, a mudança de estratégia por parte de Sabella. Sem força bruta à frente para compensar eventuais deficiências do sistema defensivo, a equação “resolvam na frente e nos viramos atrás” esvaziou-se. Foi necessária a entrada de um mecanismo mais burocrático no meio de campo, como Enzo Pérez, a fim de reforçá-lo e devolver a Messi e companhia a sensação de que chegar longe era possível.

9 – Tudo isso, ao mesmo tempo em que trouxe solidez para o sistema de jogo hermano, que evoluiu gradativamente durante a fase mata-mata, trouxe também, em algumas ocasiões, dificuldades para o protagonismo dos argentinos. Às vezes ele aparecia, às vezes não. O fato é que, para o bem ou para mal, os líderes das Eliminatórias da América do Sul seguiam avançando, e o momento certo para mudar essa história era qualquer outro, menos em uma decisão de Copa do Mundo.

10 – A Alemanha começou a arregaçar as mangas após uma ou outra chance perigosa de Higuaín e Messi, frutos de um desempenho incomum dos comandados por Löw nos minutos iniciais da segunda etapa regulamentar. Aos poucos, ainda que com um evidente cansaço, o adversário foi sendo cercado. Sem Lavezzi, que saiu para a entrada de um irreconhecível Agüero, de péssimas atuações durante o Mundial, as escapadas foram ainda mais escassas e inofensivas. A Argentina assumia de vez a condição de agente passivo do confronto, até que, para a felicidade dos novos tetracampeões mundiais, Klose olhou para a beira do gramado e viu uma placa erguida com o seu número. O salvador – que iria acabar com uma incrível sequência do oponente, há 456 minutos sem sofrer gols – estava prestes a entrar.

11 – Aos vice-campeões, apesar do natural abatimento pelo revés, a convicção de que, quando a poeira abaixar, o selecionado deixou o Brasil com mais certezas do que dúvidas, e que está sedimentado o caminho para que, nos próximos anos, seja com o próprio Sabella ou não, as glórias sejam alcançadas. Foram sete minutos em desvantagem no placar durante toda a Copa do Mundo – justamente os últimos.

e 12 – Para a Alemanha, o agradecimento por ter buscado a todo instante tratar a bola da melhor maneira possível. Mesmo sem Marco Reus, Gündogan e Schmelzer, demonstrou imensa capacidade de domínio sob seus adversários, invertendo a lógica que por vezes predomina no futebol, cada vez mais físico e defensivo. Na Copa de 2014, a exemplo do que aconteceu há quatro anos, o troféu chegou às mãos daqueles que mais o mereceram.

Alemanha 1-0 Argentina (13 jul 2014, Maracanã) – Final, Copa do Mundo – Gol: Götze

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Victor Calvano – AP