Saltar de um trampolim

Argelia Russia Copa do Mundo 2014 - Damir Sagolj Reuters

Ao lado da Costa Rica, a Argélia foi a grata revelação desta Copa do Mundo. Só ganhou um jogo, é verdade, mas competiu – e bem – diante de equipes teoricamente mais fortes, além de por em xeque a campanha de um dos grandes candidatos ao título, que teve de se esforçar ao máximo para superar a equipe norte-africana.

A classificação da Argélia para o Mundial chegou depois de um duríssimo confronto contra Burkina Faso. Os Zorros do Deserto repetiram o feito de duas presenças consecutivas em Copas do Mundo depois das aparições em 1982, na Espanha, e 1986, no México. Assim como haviam deixado uma boa imagem nas terras ibéricas, no Brasil voltaram a elevar o seu futebol a um patamar digno de reconhecimento.

Uma derrota apertada para a Bélgica depois de sair na frente, um baile sobre a Coreia do Sul em uma das melhores exibições coletivas do Mundial, um empate contra a Rússia que transformou o revés do intervalo em uma vaga nas oitavas e, então, uma queda na prorrogação para a Alemanha. Argélia não tem dívida alguma.

Os árabes alcançaram o primeiro estágio da fase mata-mata pela primeira vez na sua história (recordemos que, em 1982, a trapaça entre Áustria e Alemanha Ocidental não os deixaram avançar) e, ademais, foram o melhor time africano. Será esse o início do desenvolvimento do país ou apenas um pico de rendimento?

Vahid Halilodzic, o treinador bósnio da Argélia, fez mudanças logo após a primeira derrota. Ainda que a Bélgica não tenha produzido o bastante para marcar duas vezes e virar o jogo, neste dia o conjunto do Magreb mostrou-se muito pouco propositivo. Diante da Coreia do Sul, começou-se a ser vista uma escalação mais interessante: boa saída de bola desde a defesa, laterais que avançam com qualidade, perigo pela faixa central do gramado e a potência de seu centroavante para exigir ao máximo das zagas adversárias – assim que os asiáticos foram goleados.

Foi essa cara atrevida, também, que deixou uma impressão tão boa contra um colosso como a Alemanha. Só a fenomenal partida de Manuel Neuer, o líbero corretor de uma calamitosa zaga alemã, evitou que a Argélia aproveitasse pelo menos um dos três mano a mano que teve no total, o que mandaria os germânicos para casa mais cedo. Sofiane Feghouli e Islam Slimani poderiam ter sido os heróis da classificação se não existisse o tal goleiro que, de um Mundial para o outro, deu um salto gigantesco de categoria.

O que precisa acontecer para que a Argélia não sucumba? Essa pergunta é um convite para se cair no lugar comum, mas primordialmente é necessário realizar um trabalho sério a longo prazo, já pensando na Copa da Rússia, em 2018. O fato de Halilodzic ter atravessado sem interrupções o período de quatro anos tem ligação direta com o nível de sua equipe.

Rais M’Bohli – o fenomenal arqueiro que atua na Bulgária – tem 28 anos. Na zaga, Essaid Belkalem tem 25 e Rafik Halliche, 27. O lateral-esquerdo Faouzi Ghoulam, que tem um futuro enorme pela frente, aos 23 anos já é titular no Napoli, e parece que seguirá crescendo no Calcio.

No meio de campo também é possível sonhar: o mágico Feghouli, que brilha semanalmente pelo Valencia, tem apenas 24 anos; Yacine Brahimi, do Granada, também. E a joia Nabil Bentaleb, do inglês Tottenham, já tem um Mundial na bagagem com apenas 19 anos. Saphir Taider pertence à Inter e só tem 22. E para Abdelmoumene Djabou, o autor do tento ante a Alemanha, não é possível descartar uma ida para a Europa depois de uma Copa em tão bom nível, apesar de ainda jogar na Tunísia e já ter 27 anos.

No ataque, aos 26 anos, Slimani parece deixar claro que será o camisa 9 desta equipe por mais um bom tempo. De todo modo, Nabil Ghilas, do Porto, de apenas 24, também brigará por um lugar. Riyad Mahrez – de 23 anos, que joga no Leicester City – também mostrou atributos interessantes diante da Bélgica. E viu-se fora da lista, ainda, Ishak Belfodil, que teve uma má temporada na Itália (com um semestre na Inter e outro no Livorno), mas com 22 anos parece ser um jogador capaz de somar no ciclo que agora se inicia até 2018.

Há material humano e também parece haver uma ideia. Além disso, as duas presenças consecutivas no Mundial são um resíduo experimental fundamental para uma equipe que esteve 24 anos distante do grande evento. Talvez, a partir de agora, a Argélia possa ocupar um lugar de representatividade para os países árabes que jamais foi propriedade do Egito, apesar de seus múltiplos títulos continentais recentes.

Diego Huerta, editor do Cultura Redonda, é jornalista. No Twitter, @diegofhuerta

Foto: Damir Sagolj/Reuters

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