A arte da reconstrução

FIFA World Cup - Germany v. Brazil

Em novembro de 2012, um grupo de jogadores que começavam a alcançar relativa maturidade dentro de campo era apunhalado com uma notícia das mais desagradáveis: o seu técnico, responsável por um início inconstante e por uma recuperação notável nos últimos meses, já não pertencia mais ao mesmo ambiente que eles. Por uma decisão política, não há dúvidas, Mano Menezes não seguiu na Seleção Brasileira, a fim de comandá-la na Copa do Mundo a ser realizada em casa, menos de dois anos depois. O novo presidente da CBF, figurinha carimbada nos álbuns da época da ditadura brasileira, escolheu ir para o combate com o seu comandante.

Luiz Felipe Scolari era o escudo máximo que um cartola interessado apenas em fazer politicagem poderia sonhar: pentacampeão em 2002, tinha costas largas o bastante para centralizar as críticas que ao escrete canarinho fossem destinadas. Ao seu lado, como coordenador técnico, Carlos Alberto Parreira, o homem que se consagrou mundialmente em 1994, o ano do tetra. Nada mais mais “seguro” e, ao mesmo tempo, nada mais equivocado.

A proposta até fazia algum sentido, pelo lado mais pragmático das coisas. “Estamos nos preparando para uma Copa em casa”, pensavam os mandatários, “e precisamos do líder de mais renome e de resultado mais certo, a despeito das demonstrações que o atual tem demonstrado ter. Talvez joguemos pior, mas as chances de vencermos é maior”. Só se esqueceram que, mais do que incapaz de fazer os seus times jogarem bem, Felipão já àquela altura era um treinador de conceitos atrasados até mesmo para quem deseja apenas se defender.

E engana-se quem pensa que a necessidade de retomada do futebol que tanto nos caracterizou era apenas sentimental, uma vez que é perfeitamente possível conquistar a glória sem presentear o esporte com um legado. A necessidade era, também, técnica.

Se os adversários já respeitam a camisa verde e amarela mais do que qualquer outra, o que esperar da situação em que essa camisa será vestida por atletas de bom nível técnico, que jogam um Mundial em casa e possuem – com um alto grau de equívoco, é verdade, mas ainda assim possuem – a aura de grandes favoritos?

Não é com um profissional que encara a sua área como uma batalha entre exércitos – algo exemplificado por “A arte da guerra”, de Sun Tzu, o livro que foi o seu companheiro de viagens entre Japão e Coreia do Sul, sedes do Mundial de 2002 – que esse objetivo será alcançado.

Seriam necessárias novas alternativas, uma estratégia de jogo que primasse pela posse de bola, pela marcação sob pressão e por uma saída de jogo mais condizente com o nível dos jogadores que a protagonizavam. Diferente disso, um plano B inexistiu (há quem diga que não houve nem um plano A), o avanço dos atletas brasileiros para sufocar as jogadas adversárias na sua raiz esteve longe de ser o mesmo de outrora e, cada vez mais, os donos da casa foram reféns dos chutões da defesa, originados pela falta de opções a menos de 20 metros para o passe mais curto.

Espaços imensos eram encontrados na intermediária defensiva brasileira no momento em que Thiago Silva ou David Luiz – de, assim como o capitão, também belo desempenho na competição, apesar das duas últimas catastróficas atuações – dominavam a bola com alguma tranquilidade. Luiz Gustavo era um terceiro elemento mais recuado, enquanto os laterais, de natureza ofensiva, subiam alguns metros para serem os arquitetos das jogadas quando ela já estivesse na altura do meio de campo.

Um desempenho abaixo da média de Paulinho, de titularidade indiscutível até então, minimizou enormemente as chances de a trupe de Scolari, além de lograr bons resultados, alcançar o seu auge. E o substituto Fernandinho, de atuação convincente apenas na etapa final da última partida da fase de grupos, que garantiu a vaga do Brasil nas oitavas, também pouco colaborou.

Com atribuições defensivas em excesso, o organizador Oscar, na sua função, não passou de mera lembrança. Luiz Felipe Scolari transformou o meia-atacante do Chelsea, que com Mano Menezes era o principal gerador de jogo canarinho, em um meia que mais olha para trás do que para a frente. Para os fins que o comandante escolheu, o seu desempenho foi incrível – repetiu os feitos da Copa das Confederações, quando foi o atleta que mais desarmou em todo o campeonato. Mas não para os anseios ofensivos da Seleção.

Para quem só tem martelo, tudo vira prego. Scolari é surpreendente quando tem em mãos uma equipe limitada, cheia de inimigos e com algo a provar. Por outro lado, quando o seu esquadrão tem boas individualidades, recebe apoio maciço da imprensa esportiva e dá-se por satisfeito com o título em um torneio de importância questionável mundialmente, sim, mas fundamental para a consolidação deste elenco, a carência de ideias é evidente.

A insistência por manter entre os titulares um camisa 9 de mobilidade assustadoramente inferior àquela apresentada em 2013 é um símbolo deste estilo de jogo baseado em pilares antiquados. Com uma equipe engessada, nem mesmo o brilhantismo técnico de Neymar foi capaz de fazer com que os mandantes se impusessem da maneira que deveriam. Em 45 minutos contra Camarões e em outros 45 diante da Colômbia, a atuação brasileira foi elogiável. O saldo, porém, está longe de ser bom. Nos instantes em que o craque não esboçou traços de genialidade, a superfície esteve infestada de velocidade, intensidade física e nervosismo, características inerentes a um time que joga por conta própria.

Um pouco de tudo isso, somadas as ausências do camisa 10 e de Thiago Silva nas semifinais, foi o início da explicação para o massacre alemão, a mais acachapante derrota já sofrida pela Seleção Brasileira em seus 100 anos de história. E, quando começa-se a observar de maneira mais serena o funcionamento dos comandados por Joachim Löw, vêm também os mais contrastantes estágios em que os países se encontram em um ranking imaginário do futebol mundial – a Alemanha lá em cima; já o Brasil, dolorosos degraus abaixo.

Os impiedosos 7 a 1 podem mesmo, no calor do jogo, representar não muito mais do que o descompasso tático, emocional e técnico entre os protagonistas do confronto. Um olhar mais além, no entanto, que se preocupe em analisar minuciosamente todos os aspectos relacionados aos 90 minutos de bola rolando, enxerga muito mais coisas.

O passo atrás que foi dado por um grupo de referências alemãs no âmbito esportivo, há mais de uma década, é o motivo para os degraus acima em que eles se encontram na atualidade. Não diagnosticaram os seus insucessos como meros acidentes, reais apenas por um apagão de tempo bem definido, um hiato de sete minutos que recebeu os quatro mais poderosos tiros já disparados contra o esporte preferido dos brasileiros – eles viram que era necessário mudar. E, mais do que ajustes, promoveram uma profunda reestruturação nacional.

Gestão profissional em clubes e federações, divisão mais igualitária das receitas provenientes dos direitos de televisão para as agremiações que compõem a sua liga, a certeza de que uma situação financeira sadia é mais importante do que qualquer estrela no elenco, a reciclagem de técnicos já existentes e um programa de formação para os que estão por vir, a definição de um estilo de jogo pelas equipes principais, o que deve ser seguidos, inclusive, pelas suas categorias inferior… Todas essas medidas foram adotadas pelos atuais campeões mundiais, e todas elas exigem coragem e competência. Se as cabeças do esporte brasileiro não estão dispostas a alterar esse cenário, identificá-las e substituí-las passa a ser uma tarefa de extrema urgência.

Dizer que o “Mineiratzen” deve-se à forma negligente como o futebol é tratado por essas bandas talvez soe como uma explicação aérea demais para os mais desavisados. “A Alemanha balançou as redes brasileiras sete vezes porque o seu ataque venceu o sistema defensivo do Brasil sete vez”, oras bolas, “e não porque algum homem de terno e gravata assinou os papéis errados”. Tudo bem. Com um técnico mais atualizado, a nossa talentosa geração realmente deverá alcançar resultados muito mais empolgantes daqui a quatro anos, na Rússia. Mas há poucas atitudes mais ingênuas do que acreditar que o que acontece dentro das quatro linhas é obra do acaso.

Como um sinal de que as coisas caminham muito mal, pelo menos, o episódio precisa ser tratado. Talvez a verdade esteja perto demais para podermos acreditar nela, mas o Brasil não tem o direito de deixar o cavalo da reestruturação profunda de seu futebol passar selado pela segunda vez, a exemplo do que aconteceu em 2011, na final do Mundial de Clubes entre Santos e Barcelona. Há muito trabalho pela frente e, para que os passos seguintes sejam mais firmes, o primeiro deles é reconhecer os graves e incontáveis erros que cometemos nos últimos anos. Por mais que não pareça, no dicionário do futebol, prepotência rima com fracasso.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Adrian Dennis / AFP

Outras leituras recomendadas:
Um a um da Seleção Brasileira na Copa de 2014, por Gustavo Carratte
– Seleção da Copa do Mundo 2014
– Editorial #1: outro jornalismo esportivo é possível