Um grande passado pela frente

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Dunga como técnico da Seleção Brasileira no início deste ciclo especial até a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, é um fato a ser lamentado. Também por seu estilo rancoroso, que pode pesar em um momento que deveria ser de mente limpa e reoxigenada, mas principalmente por tudo o que a sua maneira de ver o jogo traz consigo, afastando-nos das soluções para os problemas enfrentados dentro de campo nos últimos anos.

Só iremos evoluir seriamente quando a estrutura esportiva nacional deixar para trás os seus vícios, sendo instaurado um cenário realmente democrático e preocupado com o desenvolvimento de atletas, técnicos, clubes e seleção. Isso é indiscutível. Mas, em meio a um mar de lama, um comandante em dia com as tendências do futebol mundial seria uma ponta de esperança. E, ao menos para os próximos quatro anos, essa parece ser uma discussão perdida.

As qualidades e os defeitos de Dunga como treinador são detalhes menores em comparação a todas as oportunidades que desperdiçamos ao deixar em suas mãos o comando técnico do Brasil. Após mais uma demonstração do nosso atraso – a exemplo do que já havia acontecido em 2011, quando o Santos apenas tentou emular uma partida de futebol contra o Barcelona -, a decisão dos dirigentes, cada vez mais deploráveis, é a de recorrer ao passado. Um passado nem tão vitorioso assim, e que, mesmo se tivesse sido, não representa o que queremos e podemos ser.

A falta de ideias da CBF está simbolizada no seu histórico de técnicos recentes, que, desde o início dos anos 2000, teve Luiz Felipe Scolari, Parreira e Dunga – com um respiro breve e, pelos mais diversos motivos, turbulento com Mano Menezes -, voltando agora a repetir a preocupante sina. Correr atrás dos outros sugere inferioridade e, certamente, não é das melhores sensações. Mas é difícil imaginar algo mais grotesco do que se ver correndo atrás do próprio rabo.

Por sua vez, a falta de ideias do novo (?) técnico está representada no estilo de jogo que o fez alcançar um bom aproveitamento (76,7%) em sua primeira passagem. Triunfos convincentes contra seleções grandes – ou atrevidas, como o Chile de Marcelo Bielsa -, que tentavam jogar de igual para igual, e a mais completa falta de repertório diante de adversários mais modestos, amedrontados com o peso da amarelinha ou cientes de que, ao medir forças com uma equipe que só sabia contra-atacar, esperar era a melhor saída.

É possível, por outro lado, que o escolhido de 2014 pense diferente do escolhido de 2006. Um homem que leu o próprio obituário – como aconteceu com ele, após a eliminação para a Holanda na Copa de 2010 – nunca mais será o mesmo. Mas os seus argumentos futebolísticos, reforçados no seu único trabalho desde então, no Inter de 2013, ainda estão a léguas de distância do ideal – o que diminui a importância de “nós já fomos os melhores, mas não somos mais”, uma das poucas declarações que pôde ser aproveitada em quase uma hora de perguntas e respostas.

Depois de um Mundial marcado pela consolidação da marcação sob pressão, que sufoca o adversário desde o seu campo de defesa, Dunga apontou “as linhas de defesa posicionadas 10 metros atrás do meio de campo e a chegada de quatro ou cinco homens à frente na hora dos contra-ataques” como dois aspectos relevantes em um dito futebol ofensivo e atual – um comentário que faz até os mais racionais e ponderados deixarem uma ou outra lágrima escapar.

Dunga não é incompetente no que se propõe a fazer, mas é a representação máxima de um futebol que não aguentamos mais jogar. Que nada agrega à evolução do esporte. Que em nada se assemelha a tudo o que tem sido visto em campos catalães e bávaros, com Pep Guardiola, alemães e espanhóis, com Joachim Löw, Luis Aragonés e Vicente del Bosque, e chilenos, com Jorge Sampaoli. Um futebol de resultados que, fácil de jogar e difícil de assistir, não garante resultado algum.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Fabrice Coffrini/AFP

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