À espera de um novo líder

Gerrard Inglaterra Copa do Mundo 2014 - Murad Sezer Reuters

Os deuses do futebol, normalmente, são lembrados em grandes duelos, como em uma final de Copa do Mundo. Quando duas grandes escolas se enfrentam, só eles mesmos para decidirem a parada. Nem sempre, porém, esses seres supremos contemplam todos os seus servos, mesmo se tratando dos criadores deste esporte, tão venerado em todo o mundo. Apenas um título a Inglaterra tem na bagagem, e quase tão grande quanto o jejum de conquistas mundiais estão as suas seguidas campanhas frustrantes. Como se já não bastasse, a seleção perdeu nesta segunda-feira, dia 21, a sua referência, o meia Steven Gerrard, que deu adeus à camisa 4 que vestiu por 14 anos – fato que o transformou no terceiro atleta que mais vezes vestiu a camisa dos Three Lions, atrás apenas de Peter Shilton, lendário goleiro das décadas de 1970 e 80, e David Beckham.

Os ingleses estão há quase 25 anos distantes de jogos em semifinais de Copas do Mundo. Resultado que, para um membro do seleto grupo de oito campeões do mundo, beira uma crise esportiva. Por sinal, desde que levantaram a taça pela primeira e única vez, não conseguiam um resultado tão bom como em 1990. Aquele ano de 1966 marcou ao alcançarem o posto de melhor equipe entre todas em suas próprias terras. Mas, com um feito desses, as cobranças e expectativas se tornam gigantes, ao ponto de se compararem com a importância daquele número um.

O selecionado da terra da rainha ainda não conseguiu retribuir a esta espera. Esteve, desde a taça, como uma das equipes mais fortes e com craques. Entretanto, a maior parte deles não correspondeu em campo ao defender o país. Nomes como Michael Owen, o menino de ouro, nos Mundiais de 1998 e 2002, e Wayne Rooney, com três Copas nas costas, nunca levaram uma conquista sequer para a terra natal.

Como dizem, o que já está ruim ainda corre o riso de piorar. Não bastasse ter dificuldades para conseguir impor a sua história nestes tempos mais recentes ou conviver com grandes jogadores que não se apoderam da camisa branca e vermelha com a mesma garra e esforço do que usam as vestes de seus clubes, agora terá que superar a saída do seu principal jogador nos últimos 14 anos. Dono de um meio de campo extremamente técnico, seja na seleção ou no Liverpool, o seu clube de coração, Steven Gerrard fez história, ainda que, com ele em campo, a Inglaterra também só tenha colecionado más campanhas.

Seja em Copas do Mundo ou em disputas na Europa, o casamento entre a camisa branca e vermelha e o volante protetor da zaga e criador de jogadas não rendeu nenhum caneco. Em Mundiais, duas quartas de finais e uma queda nas oitavas, além do vexame pintado de verde e amarelo ao cair ainda na primeira fase no Brasil. Em Euros, duas quartas e nada mais. Como grita a torcida corinthiana, cujo clube se inspirou em uma equipe inglesa para definir o seu nome, às vezes se vive da paixão por um time, e não de conquistas.

Os frutos de Gerrard pela Inglaterra, entretanto, terão que vir de outra forma em vez daquela mais conhecida, com um troféu. O legado será assim como o seu trabalho para a equipe e para o esporte chamado futebol: dentro de campo. Wilshere, Henderson, Milner, Barkley e Lallana, meias que estiveram ao lado do capitão no Brasil, assim como o eterno companheiro de meio-campo da seleção, Frank Lampard – que é até mais velho, e também pode se retirar do selecionado -, terão agora a sua vez para liderar uma nação.

Perto do adeus dos campos, Gerrard começa a ter do seu lado novos craques, como os citados acima. A diferença é que todos – os torcedores dos Reds um pouco mais do que os demais, naturalmente – o tem como a referência de um time e de um país. Apesar de não levar a seleção aos postos mais altos, sem poder de fogo para carregar o piano sozinho, a sua importância em meio a 11 nomes durante mais de uma década fez com que a geração seguinte o tivesse como ídolo. E não só a seguinte, já que alguns conseguiram tê-lo, inclusive, como companheiro. Os que virão nos próximos anos certamente também irão se inspirar naquela camisa branca de número 4.

A Inglaterra, ainda, terá que enfrentar um problema ideológico para se renovar. Tem o melhor campeonato de clubes do mundo, mas, em campo, poucos times têm um número expressivo de jogadores ingleses. Campeão nacional no ano passado, o Manchester City tem seis ingleses em seu elenco de 27 jogadores. Entre eles, três são brasileiros e três argentinos, que, somados, igualam ao número de atletas do time que nasceram e atuam no próprio país. A diferença é gritante quando comparado à Alemanha, atual campeã do mundo e cujo o Bayern de Munique, com elenco de 25 jogadores, tem 12 alemães entre os escolhidos. Para o país renovar a sua seleção, será preciso mudar a mentalidade dos clubes da terra da rainha Elizabeth II.

Grandes jogadores têm o poder de virar referência de todo um país. Conquistas surgem para a consagração. Quando eles não vêm, essa chance diminui, assim como a paciência dos fãs. Poucos, porém, tem a capacidade de superar essa barreira, tornando-se ídolos nacionais pela qualidade ou até mesmo pela insistência. Gerrard é um destes fenômenos raros. Agora, resta saber se o suor que deixou pela pátria será aproveitado pelos novos craques que o substituirão. Que os deuses do futebol estejam com a Inglaterra…

Arthur Stabile é jornalista. No Twitter, @ArthurStabile

Foto: Murad Sezer/Reuters

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