O fim da era Prandelli

Cesare Prandelli Itália - Getty Images

A Itália entrou na Copa do Mundo de 2014 sob a expectativa de reverter o péssimo resultado da Copa passada, quando ficou em último lugar num grupo com Paraguai, Eslováquia e Nova Zelândia, e a oportunidade de mostrar o seu “novo futebol”, de bons resultados em Eliminatórias, Euro 2012 e Copa das Confederações 2013. Por fim, saiu dividindo o posto de tetracampeão mundial com a Alemanha, repetiu um fracasso que não acontecia há mais de dez Copas e há quase cinco décadas.

Porém, mais decepcionante do que isso foi o bom trabalho de Cesare Prandelli ser abandonado em um mês. O time que até então sofrera apenas duas derrotas em jogos oficiais, justamente para a Espanha, na decisão da Euro, e para o Brasil, na semifinal das Confederações, dobrou essa marca com derrotas impactantes contra Costa Rica e Uruguai.

O futebol propositivo, de posse de bola efetiva, era a principal marca do “novo futebol”. Mas ele só foi visto contra a Inglaterra, na estreia, em Manaus. Na ocasião, o time de Prandelli dominou os ingleses nos quesitos bola jogada e intensidade, justamente no clima que mais se temia, na alta umidade da Amazônia. Diante da Costa Rica, no entanto, a equipe foi superada pela surpresa, tanto tática quanto fisicamente. A então novidade da seleção italiana, o 4-1-4-1 com cara de 3-4-3, teve as suas virtudes anuladas pela marcação em linha bem arquitetada de Jorge Luis Pinto, tornando os lançamentos de Pirlo ineficazes e aniquilando um Balotelli em péssima fase técnica.

Em Natal, contra a seleção uruguaia, dependente de Suárez e a bola parada mirando Godín, Prandelli abandonou seus ideais e apostou no 3-5-2 à la Juventus, com três zagueiros – algo que ainda não tinha feito, já que normalmente o central era De Rossi, então lesionado, que permitia algo a mais e não perdia o meio de campo. E, apesar do futebol reativo uruguaio, não teve domínio do setor, e a posse de bola mais uma vez tornou-se estéril. Ao final, quando já tinha um jogador a menos e precisava ao menos de um empate, pesou a deterioração física dos jogadores.

O baque foi grande e, imediatamente após o jogo, o treinador da Nazionale anunciou a sua demissão, admitindo o fracasso e assumindo os erros que cometera na condução do time durante o torneio. No mesmo ritmo, o presidente da federação, Giancarlo Abete, também confirmou a sua saída depois de sete anos de trabalho. Como se não bastasse, ainda houve a saída dos líderes Buffon e Pirlo.

E assim está a Itália hoje. Num momento difícil para o futebol nacional, em que se tenta renovar e superar as dificuldades financeiras, o trabalho que marcava o início de toda a mudança se foi. Quem quer que seja a assumir o comando da federação e da seleção, terá uma grande responsabilidade nas mãos, mas ao menos poderá recomeçar com uma boa estrutura e o legado deixado por Prandelli. Se a condução nesta Copa não foi a ideal, fica um trabalho que poderá levantar a Itália novamente.

Entre outros pontos, há também o fim definitivo da geração de 2006 e de uma entressafra onde pouco se produziu em qualidade. Vice-campeão europeu sub-21 e sub-17, o futebol italiano confia na base construída pelas seleções de base influenciada pelo homem que revolucionou o futebol no final do último século, Arrigo Sacchi, que é coordenador técnico do setor juvenil.

Chiellini, De Rossi, Montolivo, Rossi, Sirigu, Bonucci, Ranocchia, Astori, Ogbonna, Criscito, Marchisio, Candreva e Cerci, todos já do grupo, deverão seguir, mas urgem novos nomes, como Balotelli e Verratti, ambos já protagonistas em 2014, além de Perin, De Sciglio, Darmian, Poli, Florenzi, Bonaventura, Immobile, Insigne, Destro e El Shaarawy, também chamados por Prandelli. Enquanto isso, nomes como Bardi, Leali, Scuffet, Donati, Zappacosta, Caldirola, Bianchetti, Antei, Rugani, Regini, Marrone, Crimi, Bertolacci, Baselli, Benassi, Sturaro, Verdi, Sansone, Berardi, Gabbiadini e Paloschi, de olho em uma oportunidade, lutam para se afirmar.

Arthur Barcelos é estudante. No Twitter, @arthurbarcelosz

Foto: Getty Images

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