Quem matou Nicolás Pacheco?

Justicia por Nicolas Pacheco - Reprodução Facebook

Em alguns jogos do Mundial, principalmente naqueles disputados pela Argentina, era possível encontrar na torcida uma faixa que pedia “Justicia por Nicolás Pacheco”. Não chega a ser algo incomum as faixas ou cartazes com nome de torcedores que, de alguma forma, tiveram a sua morte relacionada ao futebol. Triste realidade que pode ser vista não apenas nos estádios sul-americanos, mas também na Europa. Mas quem era Nicolás Pacheco, afinal, e por que pedem justiça por ele?

Essa novela argentina começa em Avellaneda, cidade ao sul da Grande Buenos Aires. Por lá, reinam absolutos dois tradicionais rivais, o Independiente e o Racing. Em uma daquelas ironias que só o futebol pode proporcionar, a distância entre o Libertadores de América, estádio do Independiente, e do Cilindro, casa do Racing, é menor do que dez quadras. Pacheco era jornalista e apaixonado pelo clube azul e branco. Radialista, produzia e apresentava um programa chamado “Racing ou nada”. E, em outra ironia triste do futebol, talvez tenham sido torcedores do próprio Racing que lhe tiraram a vida.

Janeiro de 2013 – e já não estamos mais falando de Avellaneda, mas da sede social do Racing, na Villa del Parque, bairro na região noroeste da capital argentina. Foi lá que, na madrugada de 24 de janeiro, a polícia encontrou o corpo de um homem de 32 anos boiando nas piscinas próximas às churrasqueiras do clube. Eram 6h30 da manhã, e a perícia chegou a conclusões macabras: não se tratava de um caso de afogamento, pois o cadáver apresentava golpes na cabeça e fraturas diversas. Poli traumatismos. Um porta-voz envolvido nas investigações declarou à época para a Télam, uma agência de notícias argentina, que “a causa da morte foi uma fratura no crânio, mas não há dúvidas de que a vítima foi golpeada brutalmente”. Brutalmente. A mesma fonte informou que, de acordo com a autópsia, o jornalista não tinha água nos pulmões – ou seja, fora jogado na piscina quando já estava morto.

E como tantas coisas que envolvem futebol e violência, principalmente neste canto do mundo, não tardou para surgirem nomes de supostos assassinos que não foram julgados. Dizem – dizem – que integrantes da Guardia Imperial, uma das torcidas do clube de Avellaneda, costumava se reunir na sede social e organizar churrascos semanais. Dizem – dizem – que Pacheco estava em um churrasco com integrantes dos Racing Stones, outra torcida do mesmo clube que não estava exatamente em um período de paz com a Guardia. Mas isso é o que dizem.

Também conforme jornais da época, uma testemunha que vivia próxima ao clube escutou gritos, uma discussão, e depois o barulho de algo caindo na água. A perícia também constatou que a vítima apresentava um alto nível de álcool no sangue, o que levou à suspeita de que a briga possa ter sido causada inicialmente por uma bebedeira. Pelo homicídio, foram processadas três pessoas que estavam no churrasco com Nicolás, e que eram amigas (!!!) dele e de seu irmão, todos sócios do Racing.

Em um primeiro momento, eles chegaram a ser testemunhas do caso, tendo contado que, ao se dar conta da ausência do “amigo”, e ver que ele havia deixado celular, óculos, bermuda e camiseta no setor das piscinas, foram procurar, quando o encontraram sem vida. Enrique Rulet, Juan Carlos Rodríguez e Aníbal Domínguez Butler foram liberados com pagamento de fiança no fim de maio de 2013, depois de passar apenas algumas horas atrás das grades. Patrício Gerson Reynoso, processado por encobrir o crime, obteve liberdade também. Passou dois dias preso preventivamente. Tudo indica que, quando esteja resolvida a situação processual, os suspeitos seriam levados a um julgamento. Até lá, a família espera. Pede justiça. Como dizem, “o importante é não esquecer”.

Em março deste ano, o advogado da família Pacheco, Luis Charró, participou de programas de rádio simpatizante do Racing. Afirmou que os três acusados de homicídio também seriam julgados por tentativa de encobrir a morte. Charró, porém, lamentou que a investigação não se ampliou como deveria. Não foram investigadas ligações telefônicas e o pessoal de dentro do Racing não ajudou muito. Sobre a família, o advogado disse que estão desconformes pela maneira incompleta como a situação está sendo levada adiante, por não poder investigar por sua própria conta, até porque não cabe aos familiares fazer as investigações. Naquele mesmo mês, Charró ainda afirmou que, pelo menos em 2014, a causa não iria a julgamento oral.

Em 2011, o Instituto Nacional de Cine y Artes Visuales argentino realizou um concurso chamado “O futebol e outras paixões argentinas”. O curta-metragem vencedor se chama “Obrigado ao meu velho”, e fala de como a paixão por um clube de futebol é algo herdado. O vídeo é protagonizado por Nicolás e seu pai, Miguel Pacheco. Por motivos desconhecidos, talvez por uma briga estúpida, Nicolás não terá filhos para lhes contar sobre esse amor. Pelo mesmo futebol que sempre foi sua paixão, Nicolás acabou morrendo.

De acordo com a organização “Salvemos al Fútbol”, que luta contra a violência no futebol argentino, 66 pessoas morreram nos últimos dez anos, dentro e fora dos estádios, devido a ações de barras bravas, grupo de torcedores violentos. Seja como for, familiares e amigos de Nicolás seguem pedindo por justiça em jogos do Racing, em jogos da Seleção, em passeatas e em páginas nas redes sociais. Eles buscam os culpados. Buscam justiça. Buscam por uma resposta que talvez nunca encontrem.

Soraya Bertoncello é jornalista. No Twitter, @real_sorasha

Foto: Reprodução/Facebook

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