O legado da Copa

Cristo Redentor Maracanã - Fifa

E eis que a Copa, que não iria acontecer, aconteceu. E superou não só as piores como até as melhores expectativas. Estádios lotados, mais de 3 milhões de visitantes, jogos inesquecíveis. O tal do vexame profetizado por alguns gurus não deu as caras. Bem, teve a seleção brasileira, que aliás era a única esperança de sucesso do país para muita gente, e deu no que deu. Tudo daria errado, menos o time de Felipão. Alemanha campeã. Mas isso é assunto para especialistas em futebol, o que não é o meu caso.

Estádios novos e bonitos, aeroportos reformados que deram conta do recado, alguns viadutos e vias expressas, metrôs, ampliação da rede hoteleira, tudo isso são melhorias que ficarão. Ok. Mas, com exceção dos estádios, o restante poderia ser feito a qualquer momento. E vamos combinar que foi dada uma melhorada, mas ainda falta muito. Não se recupera um atraso de 500 anos em sete, que foi o período compreendido entre a escolha do Brasil como sede da Copa e a sua realização.

O que podemos definir como o grande legado que ficará desta Copa para o país e seu povo? O que terá acontecido durante esses 30 dias que nos tornará diferentes do que éramos? Em que aspecto saímos maiores do que entramos? Em que atitudes nos revelamos menores do que pensávamos ser?

Não sei vocês, mas eu me decepcionei bastante com os brasileiros que foram aos estádios. Descobrimos que somos uma nação parcialmente constituída por idiotas. Gente que paga uma fortuna para ir aos jogos da Copa (ou que descola uma boca livre com algum patrocinador) e que, além de não saber torcer, aproveita pra xingar autoridades, gritar “pentacampeão” na final dos outros e, vergonha das vergonhas, vaiar o Hino Nacional de uma nação amiga. Que cantam que “são brasileiros com muito orgulho, com muito amor”, e que depois postam nas redes sociais que têm “vergonha de ser brasileiro”. Vai entender?

Devemos nos orgulhar de verdade de nós, brasileiros, que continuamos sendo nós mesmos fora dos estádios, e que recebemos bem aos estrangeiros e nos divertimos muito. As torcidas encheram as ruas do Brasil de alegria e de um colorido diferente. Moro em Porto Alegre e o meu contato mais próximo com a Copa foi ter me intrometido na Square Fest, da Holanda, na manhã que antecedeu o jogo entre a seleção daquele país com a Austrália. Um público de mais de 3 mil holandeses coloriu de laranja o Centro da minha cidade. Foi lindo e inesquecível.

Depois, saíram em caminhada pelo Caminho do Gol, invenção porto-alegrense que deverá pegar para as próximas Copas, até o Estádio Beira-Rio. Nós felizes com eles, e eles extasiados com nosso país. E olha que, ao falar de turismo, Porto Alegre fica devendo para muita gente.

E o que dizer da comovente invasão de argentinos? No jogo deles em Porto Alegre, estima-se que mais de 70 mil “hermanos” estavam em solo porto-alegrense, dos quais no máximo 15 mil dentro do estádio. O restante só veio para estar perto da sua Seleção. Dormiram na praça, dentro dos próprios carros, em casas de famílias. E como choveu em Porto Alegre naquele dia. Há quem ache isso ridículo. Eu acho comovente. E eles adoraram o Brasil e os brasileiros.

A verdade verdadeira é que nós somos um povo muito melhor do que nos faziam crer que éramos. O mundo, definitivamente, se apaixonou por este país, pelas nossas belezas, pela nossa gente alegre, simples e maravilhosa. Tudo o que foi mostrado do Brasil nestes 30 dias mundo afora não só desmente o filme de terror que passava antes da Copa, como irá despertar uma vontade louca nas pessoas de conhecer este paraíso em que vivemos, e do qual somos o principal atributo.

Não existe no mundo povo igual ao brasileiro. Sem ufanismo. Continuamos com problemas, mas eles nunca nos impediram de sermos felizes. Somos um povo muito divertido que vive em um lugar sensacional. E que sabe, como ninguém, fazer uma festa.

Diante do sucesso, aqueles que passaram os últimos anos atiçando o complexo de vira-latas que existe dentro de cada um de nós, afirmando que éramos desleixados, desorganizados, incompetentes – em suma, uma porcaria de país -, que a Copa seria um fracasso, que seríamos motivo de piada no exterior, todos os que venderam esse peixe quebraram a cara e viram a sua credibilidade se derretendo feito um picolé ao Sol (obrigado, Nico Nicolaiewsky).

Alguns ainda tentaram pular da barca durante o naufrágio. Outros, com a maior cara de pau, ainda faturaram muito dinheiro com uma Copa que combateram. E aqueles que acreditaram e/ou continuam acreditando neles deixaram de aproveitar uma Copa fantástica.

Espero que o legado da Copa seja este: que a nossa autoestima nunca mais seja afetada por vira-latas. Que tenhamos aprendido a distinguir boas de más intenções, fatos de versões, “torcida contra” de “previsão fundamentada em dados”. Que é possível ser contra o Governo sem ser contra o País.

E que venham os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Jorge Suminski, nesta vida, é um visitante. No Twitter, @realjorgerocha

Imagem extraída da transmissão oficial da Fifa

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