Editorial #1: outro jornalismo esportivo é possível

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Neste domingo, dia 13 de julho, data da final da Copa do Mundo de 2014, nasce um projeto de fortes pretensões. Elaborado durante mais de dois anos, e não posto em prática antes pelos mais diversos motivos, o Conexão Fut inicia a sua caminhada no jornalismo esportivo brasileiro com a missão de revolucionar essa área, de costumes tão viciados por parte de quem a exerce e de estereótipos tão negativos feitos por quem apenas a acompanha. Depois de tanto tempo alimentando a vontade de mudar a maneira como a cobertura esportiva é feita no país, a ideia, enfim, ganhou vida.

O seu nascimento acontece em um momento mais do que apropriado, ainda mais se for levado em consideração que não só acaba de ser realizado no Brasil o torneio futebolístico de repercussão mais impactante do mundo, como também essa mesma competição se encerra com algumas lições importantes que, se bem aproveitadas, sedimentarão o crescimento de nosso país daqui em diante.

Incontáveis foram as manchetes e reportagens a respeito da “catástrofe” que seria a Copa, com todos os serviços funcionando nas mais terríveis condições, com o Brasil entrando em colapso político, financeiro e social, e com o jeitinho brasileiro, visto como algo engraçado por nós, afetando de maneira extremamente negativa a nossa imagem perante o mundo. Como é de conhecimento geral, no entanto, as noites continuam sendo sucedidas por dias ensolarados.

Há uma série de questões a serem resolvidas, ainda, principalmente no que diz respeito aos gastos excessivos com a construção dos estádios; o alto número de sedes, o que traz consigo alguns inconvenientes e altamente criticáveis elefantes brancos; e os efeitos colaterais que obras de tamanha proporção costumam causar em moradores locais. Problemas aconteceram, naturalmente, mas algo muito próximo do que já havia sido visto em outros países – mais pobres do que o nosso, como a África do Sul, ou mais ricos, como a Alemanha.

Se formos inteligentes, aprenderemos a ter mais cautela na hora de levar em conta tudo o que diz a grande mídia brasileira, reconhecidamente defensora de interesses de certos grupos políticos, extremamente conservadora e, com raras exceções, pouco interessada em apresentar os dois lados (e há muito mais do que dois) de uma mesma notícia.

Incontáveis, também, foram os elogios rasgados ao funcionamento técnico e tático da Seleção Brasileira, de limitações conhecidas e, a cada partida desta Copa do Mundo que passou, mais evidenciadas. Um punhado de jogadores de ótima qualidade, com algumas de suas principais referências sendo bastante mais jovens do que o ideal, transformaram-se nos grandes favoritos pelo simples fato de terem sido campeões em um torneio que serve como preparativo para o principal. Chegar à conclusão de que a Seleção Brasileira tem a responsabilidade de vencer um Mundial em casa é uma coisa – perfeitamente legítima, diga-se -, mas daí a tratá-la como a equipe mais bem preparada técnica, tática, física e emocionalmente, a distância é grande.

Se formos inteligentes, usaremos esse episódio como um modelo a ser seguido para a análise das possibilidades de determinados times em uma competição. Partir de princípios pré-estabelecidos nos leva ao erro, faz com que nos contentemos com a espuma quando, na verdade, tudo o que precisamos fazer é ultrapassá-la e chegar nas águas mais profundas. De um modo geral, a análise esportiva no Brasil é assim: sedenta por espetacularizar acontecimentos banais, e preguiçosa na hora de estudar e dissecar para o público o que há de mais relevante – e é preciso mudar isso.

Os exemplos neste editorial são dois, mas os casos são milhares. Somos pinos redondos em buracos quadrados e, com um esquadrão de escritores que tenham tudo isso como característica própria, estamos dispostos a engrossar o coro em busca de um futebol, um esporte, um jornalismo e um mundo melhor.

Se tudo isso não for o bastante para revolucionar o jornalismo esportivo, que ao menos tenhamos a sorte de revolucionar a maneira como nós e nossos leitores o percebem. Pelo estágio atual das coisas, já terá sido algo grandioso.