1950, 2014 e a diferença fundamental

2014 08ago 08 - 1950 2014 e a diferença fundamental - Hélio Sassen Paz - Foto André Mourão

O dia 8 de julho de 2014 já se consolidou como uma mancha para o futebol brasileiro. Cada um dos sete gols da Alemanha em cima da Seleção de Luiz Felipe Scolari foi dolorido, e o impacto futebolístico do “Mineiratzen” jamais poderá ser suavizado. Trata-se de uma catástrofe que, inclusive, já abre caminhos para que se comece a debater com mais seriedade o futuro do esporte no país.

Há, porém, um erro gritante no que diz respeito ao trauma sofrido por aquele placar. Este, de natureza psicológica, jamais irá se equiparar ao que aconteceu em 1950, quando os uruguaios venceram a equipe de Zizinho e companhia por 2 a 1, em pleno Maracanã, e sagraram-se campeões do mundo.

Muitos reclamam de que há excesso de informação, e de que é ruim para a sociedade que todos tenham meios de compartilhar opiniões – independentemente do grau de conhecimento, da ideologia, de estar ou não de cabeça fria. Mas é possível ver tudo isso de uma forma bem diferente: em 1950, e também em 1982, o revés doeu demais por, principalmente, dois motivos: 1. a quantidade de opções de entretenimento massivo e barato além do futebol era muito reduzida; e 2. tudo o que é alegria desmedida, ao primeiro sinal de falha, desmorona para não mais se erguer.

Hoje, com TV a cabo, redes sociais e veículos diversos de comunicação digital independentes da mídia corporativa hegemônica – e, por tabela, pachequista –, aquela relação quase hipnótica de emissão e recepção para uma interpretação extremamente limitada da mensagem se esvaiu. Assim, ao invés de o país tornar-se um foco de melancolia, de desalento, de não conseguir falar sobre outra coisa, dos adjetivos absurdos como “vexame”, “vergonha” e outros menos votados, há milhões de contrapontos.

É maravilhoso saber que o Brasil evoluiu – e muito – nas últimas décadas. Afinal de contas, a diversidade de opções de lazer, a aceleração do tempo (como o único lado bom dos engarrafamentos nas grandes cidades) e a multiplicidade de atividades (como o único lado bom de viver em uma sociedade predominantemente individualista, reativa, reacionária e dinheirista) nos leva a pensar em uma porção de coisas a mais.

Antes da disputa pelo terceiro lugar, contra a Holanda, foi possível ver dezenas de torcedores em frente ao hotel em que a delegação estava hospedada, em Brasília. E para saudá-la. Não são ufanistas, alienados ou ignorantes – são pessoas que foram sozinhas, são senhoras idosas, são pais que carregaram toda a sua prole consigo. A mensagem que levavam era, de maneira geral, que não se pode ganhar sempre. Que não se larga alguém em um momento de dificuldade.

O massacre alemão foi a pior derrota que a Seleção Brasileira já sofreu nos seus 100 anos de história, não há dúvidas, mas ela está longe de ser a mais traumática para a população de nosso país. Pelo menos no “quesito dor”, ela não irá demorar tanto a passar. As crianças de hoje em dia não sofrem mais como gerações inteiras sofreram em 1950 ou em 1982. Pode-se questionar se isso é bom ou ruim, mas é um fato. Elas escolhem outras coisas para brincar.

Hélio Sassen Paz é jornalista e professor. No Twitter, @heliopaz

Foto: André Mourão