A Copa do Mundo sem maquiagens

A Copa como ela é - Jamil Chade - Paulo Guimarães Livraria Saraiva

Pouco mais de um mês após o fim da Copa do Mundo, ainda podemos discuti-la. No livro “A Copa como ela é – A história de dez anos de preparação para a Copa de 2014”, de Jamil Chade, o principal objetivo é mostrar os bastidores da preparação de uma competição cujos gastos somados quase ultrapassam o que foi gasto na organização dos últimos mundiais.

O fato é: a Copa do Mundo de futebol é o maior evento mundial. Isso não se discute. No entanto, após a leitura do livro – que, por sinal, é bem rápida – conclui-se de forma irrefutável que o Brasil perdeu uma oportunidade única de se transformar e de transformar suas cidades.

Durante dez anos, Chade acompanhou de perto as negociações que culminaram na escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014, bem como todas as polêmicas que se seguiram ao anúncio. Como correspondente do Estadão na Suíça, país-sede da Fifa, teve acesso privilegiado aos corredores da entidade máxima do futebol mundial às principais figuras que movimentaram o grande balcão de oportunidades que se tornou o Mundial.

No livro, o jornalista expõe as tenebrosas transações entre CBF e governo, e mostra como duas entidades supostamente sem fins lucrativos tornaram a Copa de 2014 o evento mais rentável de suas histórias. Seguindo os rastros do dinheiro, Jamil Chade revela como políticos e cartolas se apropriaram de um torneio que, se não trouxe ao país o “legado” prometido durante a campanha, serviu para encher (muito) os bolsos de uns poucos na mesma medida que atacou (muito) os cofres públicos.

Partindo deste princípio, assim começa a história da Copa do Mundo mais cara da história. A Copa do Mundo das isenções tributárias e dos lucros de alguns poucos, das contas sem transparência, das “arenas” faraônicas e que, em partes, serão de pouquíssima utilidade agora, que a Copa terminou.

O livro começa no hall de entrada de um hotel em Zurique. Chade relata que Ricardo Teixeira o teria chamado para conversar e relatado, em 2007: “Essa Copa será feita sem um centavo do governo”. Hoje, segundo o que o autor apurou, o que se vê é que, de cada nove dólares gastos em estádios, oito foram emprestados, financiados ou pagos pelo Poder Público (Governo Federal, estados, municípios, BNDES, Caixa Econômica Federal, etc). Ela custará três vezes mais que o plano inicial de 2007, o equivalente às duas Copas do Mundo anteriores, realizadas na Alemanha, em 2006, e na África do Sul, em 2010.

Para o jornalista, não há o que justifique isso. E questiona: “Como explicar que uma cidade que tinha o Morumbi construiu um estádio novo? Como justificar que Brasília, sem um time de futebol, tem hoje o terceiro estádio mais caro do mundo? Como justificar uma Copa em 12 sedes, se a Fifa pediu apenas oito?”.

Trata-se, portanto, de precioso trabalho de pesquisa jornalística de quem, de antemão, esclarece, de forma taxativa, não se tratar de um livro contra o futebol, contra as Copas ou contra essa Copa de 2014. Mas, parafraseando o próprio autor, com a devida vênia, de “uma tentativa de mostrar que precisamos ser uma espécie de torcedor-cidadão, que claro apoia a seleção, mas não sem saber o que de fato representou essa Copa”.

Eryx Pereira é advogado.

Foto: Paulo Guimarães/Livraria Saraiva

Outras leituras recomendadas:
O legado da Copa, por Jorge Suminski
1950, 2014 e a diferença fundamental, por Hélio Sassen Paz
Em busca do passado perdido, por Arthur Stabile