A involução do futebol africano

Song Camarões Copa do Mundo de 2014 - Ernesto Carriço

O inverno de 1990 tinha a cor sépia. Como sempre, saí do colégio às 12 horas, e a comida repousava no forno. Eu não estava muito interessado no Mundial, mas, com a verborragia de minha mãe para assistir a Argentina x Camarões, me inseri de vez neste mundo insubstituível.

A partida terminou com a vitória dos “Leões Indomáveis”, e eu, com apenas oito anos, sofri as terríveis patadas que “acariciavam” Diego Maradona e Claudio Caniggia, mas também me comovi com seu jogo quase puro, que avançam aparentemente sem se importar com nada.

Foi a partir dali que os segui sempre, e foi igualmente a partir dali que não parei mais de ler e ouvir que o futebol do continente africano era o futuro. E esperei essa evolução, logicamente. Começaram a aparecer seleções como a Nigéria de 1994, com Rashadi Yekini, Kanu ou Finidi George. Mas em 1998 só “As Águias” classificaram-se para as oitavas de final, perdendo empiedosamente para a Dinamarca, por 4 a 1.

Em 2002, a grata surpresa foi Senegal, que já na estreia venceu a França, atual campeã, por 1 a 0, com gol da sua estrela Diouf. Chegou às quartas, caindo ante a Turquia, pelo mesmo placar mínimo. Outra seleção africana que parecia estar na porta da evolução, mas depois daquilo desapareceu do mapa futebolístico.

Na Copa de 2006, na Alemanha, quem tomou o posto foi Gana, mas chegou às oitavas e caiu por 3 a 0, quase sem atenuantes, diante do Brasil – Tunísia, Togo, Angola e Costa do Marfim disseram “presente” durante a chamada, mas não apareceram.

Em 2010, na África do Sul, pela primeira vez na história o organizador de um Mundial não passou da primeira fase. Novamente Gana foi a protagonista africana, chegando às quartas e não sendo párea para o Uruguai das mãos de Luis Suárez e da cavadinha de Loco Abreu.

Nigeria e Argélia, em 2014, chegaram na porta das quartas. Deixaram uma boa impressão contra França e Alemanha, respectivamente, mas com as derrotas seguiram a sina.

Há uma “África negra”, com seleções como Nigéria, Gana, Camarões ou Senegal, e uma “África branca”, com Egito, Argélia e Marrocos. Elas possuem diferentes formas de jogar, com a primeira sendo mais “bruta”, menos ligada à tática e mais reverente, e a segunda mais “latina”, de toque, dribles e critério. Mas quais são as razões pelas quais o futebol africano, no seu sentido mais amplo, não consegue dar o passo adiante?

Uma das razões é a má escolha de técnicos. Sem referir-se a nomes, especificamente, mas a estilos. Na década de 90, eram técnicos franceses ou russos, mais propensos a deixar o jogo fluir – o que, defensivamente, podia ser um fator negativo. Por isso, cometeram o erro de querer convertê-los em taticistas, com treinadores italianos, gregos e alemães, em sua maioria. Um grave erro, pois perderam a desfaçatez que tinham e, no quesito defensivo, seguiram deixando a desejar.

Outro dos pontos a levar-se em consideração são as brigas que têm entre as federações nacionais e suas próprias seleções – os prêmios ou a inclusão de jogadores de Camarões, por exemplo, que levou Samuel Eto’o, um jogador que não tinha afinidade com o plantel que viajou para o Brasil.

Há uma luz de esperança, como a Argélia, que está muito bem na execução de suas ideias, tanto nos âmbitos desportivos quanto administrativos. Esperemos, então, que na Copa de 2018, na Rússia, chegue essa esperada evolução. Enquanto recordo de Roger Milla, Stephen Tataw, Ciril Makanaki e seus temíveis chutes e gols que marcaram uma época, seguirei esperando.

Tano Maríngolo é escritor do Cultura Redonda. No Twitter, @Ric_Maringolo

Foto: Ernesto Carriço

Outras leituras recomendadas:
Saltar de um trampolim, por Diego Huerta
O rotineiro retorno para casa, por Sebastián Mancuso
Em busca do passado perdido, por Arthur Stabile