Richarlyson: “No Brasil, quanto mais sucesso um time faz, mais punido ele é”

Richarlyson EC Vitória - Marina Uezima

Naquele treino de 30 de setembro de 2013, no Atlético-MG, a apreensão era visível. Richarlyson tornava-se um desfalque tanto para o restante do Brasileirão quanto para a disputa do Mundial, de poucos meses depois. Passaram-se nove, no total, desde o rompimento do ligamento cruzado anterior do seu joelho esquerdo até o momento em que entrou em campo pela primeira vez com a camisa do Vitória. Tempo suficiente para pensar em muitas coisas, como, por exemplo, o futebol brasileiro, e não apenas sobre “a maior decepção de sua vida” – segundo as suas próprias palavras, em entrevista exclusiva ao ConexãoFut.com.br.

“Uma mudança é necessária”, diz o meio-campista, que admite mais receber atualizações do goleiro Wilson do que propriamente participar do Bom Senso FC. “O nosso calendário é desumano. As viagens são longas, e mesmo assim os jogos não param. Quanto mais sucesso um time faz, mais punido ele é”.

Na noite do último sábado, dia 9, véspera de São Paulo 3 x 1 Vitória pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro, o camisa 20 rubro-negro não se restringiu a falar apenas de seu novo clube, que agora, com o retorno do Barradão, terá uma sequência chave para confirmar que os sete pontos conquistados em três jogos, antes do revés para o time do Morumbi, não foram à toa.

A partir de Jorginho, por exemplo, traçou a diferença que existe entre os técnicos mais novos, sedentos por conhecimento, e os mais antigos, que “acham que já sabem tudo” – uma arrogância também bastante vista nas estruturas do futebol brasileiro, que não reconhecem a sua defasagem e, com isso, enfileiram obstáculos nos caminhos de clubes e seleção nacional.

“Não precisamos desrespeitar a nossa cultura, o nosso futebol alegre e irreverente, mas também não dá mais para só contar com isso. Se o brasileiro não perder a sua soberba e não parar de achar que não tem nada a aprender com os outros,  passarão as Copas de 2018, de 2022, e não vamos mais alcançar o lugar que sempre foi nosso”, alertou.

Para Richarlyson, ainda está aberta a disputa pelo título do Brasileirão deste ano, por mais que o favoritismo do Cruzeiro seja inquestionável. Além disso, em quase duas horas de conversa, revelou também quais são as suas visões sobre o Atlético-MG de Levir Culpi, o fim da “era Ronaldinho”, o presidente Alexandre Kalil – que “se faz de louco para confundir os sábios”-, as polêmicas relacionadas à sua preferência sexual e os seus planos para o futuro.

Richarlyson EC Vitória olhar - Marina Uezima

Conexão Fut – Você passou quase uma década em clubes de estruturas impecáveis, como o São Paulo e o Atlético-MG. Como está sendo no Vitória?

Richarlyson – Não é a mesma coisa, mas o Vitória, dentro das suas limitações, foi um clube que me surpreendeu. Os vestiários estão totalmente renovados, as concentrações tanto dentro quanto fora de casa são de ótimo nível, e os profissionais também. As diferenças fundamentais mesmo são relacionadas ao tamanho dos espaços, mas não chega a ser um demérito. São Paulo e Atlético-MG têm tecnologias de ponta em relação a academias, centros de treinamento, e são referências no Brasil.

Até agora, o técnico Jorginho o substituiu em todas as partidas – contra Cruzeiro e Criciúma durante a etapa final, e diante de Corinthians e Grêmio ainda no intervalo (no Morumbi, Richarlyson também foi sacado; desta vez, ainda no primeiro tempo). Essas trocas são apenas ressonâncias da sua lesão ou têm também uma explicação técnica?

Tem a ver com as duas coisas. Nenhum jogador gosta de sair de um jogo, mas é importante deixar claro que essas substituições já estavam no planejamento que traçamos para a minha recuperação. Em relação à parte técnica, claro, também não estou no meu ápice. Isso é visível. Mas estou atravessando uma adaptação tática, também, algo que não acontecia comigo já há algum tempo. Depois de muitos anos jogando como volante ou lateral-esquerdo, voltei a ser o que fui no Santo André – um quarto homem do meio de campo que, além de compor o setor, também se desprende e se faz presente no ataque. Quase um falso ponta. É uma adaptação tática dentro de uma readaptação física.

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E, coletivamente, em que estágio está o time do Vitória?

Depois da Copa do Mundo, quando cheguei, estávamos em uma situação muito ruim. Trabalhar com aquele peso nas costas é bastante complicado. Mas agora já estamos evoluindo bem. E o engraçado é que isso está acontecendo mesmo com as várias modificações que foram feitas, algo nem um pouco recomendado para quem deseja encaixar uma equipe. Embora a gente saiba que ainda faltam muitas arestas para eliminar, já dá para se sentir mais confiante.

É um sonho distante imaginar que, dentro de cinco ou dez rodadas, o Vitória já estará em um patamar melhor do que o atual?

Acho que não. Não é algo ilusório, não é fantasioso, não é alguém aqui jogando palavras ao vento e tentando empurrar para os outros uma visão otimista das coisas. Isso é uma realidade, até porque a equipe tem rendido bem. Mas também é preciso ter os pés no chão, manter o mesmo ritmo até o final da competição e saber que ainda não fizemos nada demais, a não ser aquilo que estava dentro das nossas possibilidades. Temos várias contratações recentes, inúmeros jogadores se recuperando de contusões, outros tantos voltando de férias, e tudo isso em um contexto nada agradável, lutando para não entrar na zona do rebaixamento e sem muita margem de erro.

Nos próximos jogos, o Vitória terá pela frente a Chapecoense (13º lugar) em casa, o Coritiba (20º) fora, e depois Figueirense (16º) e Flamengo (19º) novamente como mandante. Não é das sequências mais assustadoras. Quantos pontos precisam ser somados?

Com três jogos em casa, e contra adversários diretos, dez pontos. Se a gente quiser algo mais dentro do campeonato, no mínimo dez pontos, vencendo os três em casa e arrancando um ponto fora. Isso é uma lei dentro do Campeonato Brasileiro. Tenho uma experiência bacana nele, já passei tanto por momentos excelentes quanto por momentos complicados em outros clubes, então sei como as coisas são. Precisamos confiar no nosso trabalho acima de tudo e compreender que, se há um momento de decisão para a gente na competição, esse momento é agora.

Depois do Mundial, além dos atletas que chegaram, o Vitória ganhou também o reforço do Barradão. Antes, foram dois jogos no Pituaçu – onde a equipe somou o seu único ponto como mandante, contra o Atlético-PR – e outros dois na Joia da Princesa. Em que medida o time se fortalece com isso?

Ter a volta do Barradão nos ajudará muito. Não trata-se de uma ciência exata, mas acredito que muitas das explicações para a situação em que nos encontramos estão relacionadas à falta que ele fez para o time. Sempre joguei contra o Vitória, e nunca gostei de atuar lá, por saber que o jogo seria extremamente complicado. O gramado não era muito bom, o que melhorou, e o calor e a presença da torcida sempre foram sufocantes. Não é coincidência o crescimento que tivemos nos últimos jogos, empatando com o Corinthians e vencendo o Grêmio, dois times grandes e de reconhecida qualidade.

 

“O diferencial dos técnicos mais novos é que eles têm vontade de aprender. Os mais jovens querem ir à Alemanha para ver como as coisas são feitas, e os mais velhos, que acham que já sabem tudo, não querem perder tempo”

 

Qual é a sua avaliação sobre o trabalho do Jorginho até agora?

É engraçado, pois cheguei a jogar com o Jorginho na reta final da carreira dele no Santo André. Quando ele estava começando a carreira, jogou com o meu pai no Coritiba. Quando estava terminando, jogou comigo. E eu conheci aquele Jorginho jogador, explosivo, que não levava desaforos para casa, e foi uma grata surpresa encontrá-lo como treinador. É um outro Jorginho, paciente, que fica à beira do gramado e dificilmente grita ou esperneia.

E, de forma mais específica em relação à montagem do time, como você o avalia?

No jogo contra o Grêmio, por exemplo, o Jorginho nos alertou sobre como deveríamos nos comportar em campo. Eu estou voltando de lesão, o (meio-campista uruguaio) Luis Aguiar e o (meia) Marcinho estavam em férias, e o (volante) Adriano também teve várias lesões enquanto jogou pelo Grêmio. Temos de jogar mais com a inteligência e a experiência, e exigir menos do nosso físico, pois neste momento ninguém está voando. Ele está conseguindo encontrar soluções para os nossos problemas, tem plena consciência de que as etapas existem para ser atravessadas, não puladas, e quer deixar a sua marca no Vitória, por mais que saiba que mais para frente terá chances ainda maiores em outros lugares. A conversa que tivemos, inclusive, foi um dos motivos que fizeram com que eu viesse para cá.

O Jorginho é um dos exemplos de uma geração de técnicos que nos últimos anos tem ganhado novos nomes com a mesma frequência que tem visto fracassar alguns dos que antes eram “sensações”. Qual é a sua opinião a respeito dos treinadores do Brasil?

O diferencial destes novos técnicos é que eles têm a vontade de aprender, diferente dos mais antigos, que já passaram por esse processo e acham desnecessário se atualizar. O modelo de futebol moderno da atualidade é a Alemanha, certo? Os mais jovens querem ir lá para ver como as coisas são feitas, e os mais velhos, que acham que já sabem tudo, não querem “perder tempo”.

Tenho a impressão de que Muricy Ramalho, por exemplo, o técnico com quem você mais tempo trabalhou, percebeu essa disparidade após ser goleado na final do Mundial de 2011 pelo Barcelona e começou a buscar uma evolução. Por que os técnicos precisam levar um chacoalhão como aquele para entender?

Quando você chega no topo, acomoda. Depois do baque, quando os elogios param de aparecer, junto com as críticas vêm a situação real, onde ou você acorda para a vida ou ficará para trás. Neste ano, mesmo, já vi o São Paulo jogar com quatro esquemas táticos. Naqueles anos de tricampeonato brasileiro, com muito custo, mas muito custo mesmo, tinha uma variação – e, mesmo assim, mudando mais o desenho, nem tanto a postura. Quer dizer, ele está se remodelando. Ainda não consegue colocar em prática da maneira que gostaria, pois talvez nem ele mesmo entenda tudo o que está tentando fazer. Não é da noite para o dia que isso acontece.

 

“Uma mudança é necessária no futebol brasileiro. O calendário, por exemplo, é desumano. Quanto mais sucesso um time faz, quanto mais longe ele chega nas competições, mais punido ele é”

 

O que você pensa sobre o Bom Senso FC?

Eu mais acompanho as informações que o (goleiro) Wilson passa do que propriamente participo, mas acho que é uma das chances de evolução para o futebol brasileiro. Não será fácil, porque as coisas estão encaixadinhas, embora tudo funcione mal, e para se mudar toda uma cultura futebolística é complicado. Mas uma mudança é necessária. O calendário, por exemplo, é desumano. Viagens longas, jogos um atrás do outro, e várias outras coisas que nos fazem imaginar que o jogador é uma máquina, e não um ser humano. Não é assim. Não basta você programá-los para funcionar às quartas e domingos. No futebol brasileiro, quanto mais sucesso um time faz, quanto mais longe ele chega nas competições, mais punido ele é.

E de que maneira tudo isso desemboca na Seleção Brasileira, tendo em vista o que aconteceu na Copa do Mundo deste ano?

A Seleção tem as suas particularidades e está em outro ambiente, mas, de uma maneira mais ampla, o Brasil tem de se remodelar. Precisamos ser humildes, entender que há algo novo e, caso exista a vontade de voltar a ser o melhor futebol do mundo, ir buscá-lo.

Quantos outros Mundiais o Brasil terá de perder para aprender isso?

Não sei, mas precisa ser logo. O talento individual, que era o bonito e o que todo clube brasileiro ainda busca, já não faz mais tanto sucesso quanto o coletivo – e que também tem os seus talentos individuais – dos europeus. Não estou dizendo que precisamos desrespeitar a nossa cultura, o nosso futebol alegre e irreverente, mas não dá mais para ser só isso. O brasileiro precisa perder a sua soberba e parar de achar que, só porque tem jogadores acima da média, não tem nada a aprender com os outros. Se isso não acontecer, passarão as Copas de 2018, de 2022, e não vamos mais alcançar o lugar que sempre foi nosso.

Qual é o nível técnico do Campeonato Brasileiro?

É de uma competitividade muito grande, mas nos últimos anos tem ficado para trás em um dos fatores que sempre fizeram os outros países olharem para o Brasil com carinho. Em relação a jogadores, os sul-americanos continuam almejando um lugar por aqui. É um campeonato que paga bem e que tem mais visibilidade do que os demais. Mas acho que clubes europeus olham cada vez menos para cá. Os nossos grandes nomes continuam despertando a atenção, é claro, mas não todos. As escolas belga e croata, por exemplo, estão oferecendo muito mais atletas para os grandes polos europeus, como Inglaterra, Alemanha, Espanha e Itália, pois já formam atletas que estão dentro de um contexto mais atualizado de futebol.

 

“Não precisamos desrespeitar a nossa cultura, o nosso futebol alegre e irreverente, mas não dá mais para ser só isso. Se não perdermos a nossa soberba de achar que não temos nada a aprender com os outros, passarão as Copas de 2018, de 2022, e não vamos mais alcançar o lugar que sempre foi nosso”

 

Existe algum time capaz de evitar o bicampeonato do Cruzeiro?

Claro que existe. O Cruzeiro está acima dos demais, e tem também tudo aquilo o que um clube precisa para ter bons resultados em um campeonato longo como o Brasileiro – elenco, por exemplo. Mas agora, depois da parada para a Copa, é um outro campeonato. Corinthians, São Paulo, Fluminense e Internacional, que talvez sejam os times mais fortes, se reforçaram muito bem. O Cruzeiro é o favorito, não há muitas dúvidas, mas já não é mais aquele time que, como no ano passado, chegava a assustar.

Trocando de lado da lagoa, o que acha do Atlético-MG de Levir Culpi?

Como treinador, é um cara realista. Ele sabe que não é o melhor, mas sabe também que tem uma história muito bonita no futebol, tem os seus ideais e tenta implementá-los da melhor maneira nos elencos que comanda. Tem “raízes antigas”, digamos assim, e isso não é segredo para ninguém, mas acho que pode dar certo.

A troca de Levir Culpi por Cuca não foi uma mudança brusca demais?

Eu achei que seria mesmo. Sair um cara mais ligado, explosivo, e entrar outro que não tem nada disso até assusta um pouco – tanto é que, no começo da temporada, deu para perceber que os jogadores não estavam totalmente seguros com a situação. E, por mais que a diferença na forma de trabalhar tenha sido o fator mais impactante, os estilos de jogo também são bem diferentes, o que foi estimulado um pouco pelas características das peças que com o passar do tempo foram trocadas.

Como era a sua relação com o Cuca?

Ah, tivemos muitos problemas… Problemas entre aspas, é claro, pois nunca chegamos a brigar, discutir ou se desrespeitar… Mas tínhamos muitas divergências em relação a posicionamentos táticos. Somos duas pessoas de personalidade forte, e muitas vezes as nossas ideias de jogo não batiam. Ele queria que eu, lateral-esquerdo, fosse um terceiro zagueiro, já que o Marcos Rocha era bastante ofensivo pela direita, e isso trouxe muitos questionamentos a respeito da minha “falta de ofensividade”. Quando o questionavam, Cuca fazia questão de não explicar. Ele não queria entregar as suas armas para os adversários, tudo bem, mas isso também me fez sofrer um pouco mais nas mãos de repórteres e torcedores que não entendiam muito bem o jogo. Fora isso, é um cara de coração enorme, que respira futebol, procura sempre evoluir, e tem uma família linda, que pude conhecer nestes quase três anos que em convivi com ele.

E foi nas mãos de Cuca que o Atlético-MG alcançou o seu ápice. Um estilo de jogo diferente, quase “peculiar” se for comparado ao que se via ao redor no cenário nacional, muita velocidade, intensidade física e um craque maior. O que representou a chegada de Ronaldinho Gaúcho? Um de nossos escritores, Matheus de Oliveira, disse que ele foi a personificação das novas ambições que o clube passou a ter com a chegada de Alexandre Kalil à presidência.

Ronaldinho Gaúcho trouxe para o Atlético a atmosfera de clube grande – que na teoria sempre existiu, que todos falavam que existia, mas que não era tão sentida por quem estava por lá. A chegada dele, neste sentido, foi um divisor de águas. O time começou a jogar ainda melhor do que já tinha jogado no Campeonato Mineiro, a imprensa de todo o país passou a elogiar as nossas atuações no Brasileirão, e as coisas deram certo. Se foi coincidência ou não, veremos agora, sem ele.

 

“Ronaldinho trouxe para o Atlético a atmosfera de clube grande que todos falavam que existia, mas que não era tão sentida por quem estava lá”

 

Alexandre Kalil assumiu com o pensamento de fazer com que o Galo voltasse a ser um clube grande na prática, e a contratação de Ronaldinho fez o vento começar a soprar a favor. É esse o raciocínio?

Exatamente. A chegada do Ronaldinho foi fundamental, mas antes o presidente já vinha trabalhando para isso. As pessoas têm o costume de pensar que o Kalil é doido, mas de doido ele não tem nada. Ele se faz de louco para confundir os sábios. Dentro daquela loucura dele, que todos acham que existe, conseguiu reestruturar o clube, vencer campeonatos estaduais, chegar forte no Brasileiro e ganhar a Libertadores.

E chegar ao Mundial, também, um torneio que a contusão no joelho esquerdo tirou de você. Como lidou com isso?

Foi a maior decepção da minha vida. Demorou um pouco para cair a ficha, e foi bastante doloroso. Eu já tinha tido a experiência de participar de um (em 2005, com o São Paulo, quando bateu o Liverpool por 1 a 0 na final), mas seria o meu primeiro Mundial em família. Sempre foi um sonho jogar ao lado do meu irmão (o atacante Alecsandro), e ir para o Marrocos ao lado dele seria uma experiência incrível – e isso tudo sem contar que seria a coroação de um trabalho maravilhoso de um time que fez história. Sofri bastante com essa contusão. Mas, felizmente, sou um cara bastante tranquilo. Com o passar do tempo, percebi que talvez fosse algo que tivesse que acontecer. Acredito muito em Deus, e acho que talvez ele tenha preferido que eu não passasse por aquilo que aconteceu contra o Raja Casablanca, que foi um episódio vexatório.

Antes da ruptura dos ligamentos, você já vinha sofrendo com críticas. Chegou até a declarar que “talvez voltasse de Marrocos carregado nos braços”, como uma volta por cima. A lesão doeu mais também por todo esse cenário pessoal?

Por esses motivos pessoais e também por questões relacionadas ao clube. Sejamos realistas: irá demorar muito para que o Atlético volte a ser campeão da Libertadores. É um clube grande, mas não daqueles que conseguem montar grandes equipes com frequência. Naquele momento, o Atlético já não estava mais jogando o futebol vistoso que o caracterizou. Existiam alguns problemas no time, e aí voltamos àquela questão tática: os mais apaixonados, que não entendem tão bem os detalhes de uma partida, já começam a procurar explicações. E é claro que uma das primeiras que surgem é “o lateral não sobe”. Mas a essa altura eu já estava menos preocupado. O Cuca sempre deixou claro que iria me manter no time enquanto eu executasse bem aquilo que combinávamos, pois eu era importante para o seu plano de jogo.

Nesta mesma época, você disse que já estava acostumado com aquelas críticas, pois “a paciência com o Richarlyson sempre foi menor do que com os outros”. Por quê?

Por todos os episódios que aconteceram antigamente, na minha época de São Paulo, em relação à minha preferência sexual. O futebol é um meio extremamente preconceituoso, machista, e é claro que quando qualquer coisa acontecesse eu seria o primeiro a ser xingado. Já declarei inúmeras vezes que sou heterossexual, e ainda assim aquelas críticas todas sempre vinham. Psicologicamente eu já estava preparado.

E a partir de que momento você parou de ficar irritado com essa situação?

Irritado, na verdade, eu nunca fiquei. Dentro de campo, saber que a paciência comigo era menor até me ajudava a jogar melhor, pois ter a máxima concentração para não errar foi algo do meu cotidiano. O que me deixava profundamente chateado era em relação à minha família, na eventualidade de eles escutarem alguma brincadeira de mau gosto.

 

“O futebol é um meio extremamente preconceituoso e machista. Qualquer manifestação contrária a qualquer coisa que as outras pessoas tenham como característica está completamente fora do contexto do que é a vida hoje”

 

O episódio que ampliou toda essa polêmica, que envolveu José Cyrillo Júnior, então diretor do Palmeiras, gerou repercussões também no âmbito jurídico. E o juiz do caso foi lamentável em sua decisão, dizendo que “futebol é jogo viril, não homossexual, e que essa situação incomum do mundo moderno precisa ser rebatida”. À luz da história, como você vê tudo isso?

Chego a rir. Porque qualquer tipo de manifestação contrária a qualquer coisa que outras pessoas tenham como característica, seja isso ideal de vida, posicionamento político, cor de pele, preferência por uma religião ou orientação sexual, é algo muito antigo, completamente fora do contexto do que é a vida hoje. É inaceitável que as pessoas ainda tenham esse tipo de preconceito, como se ser diferente fosse um defeito. As pessoas liam o que aquele juiz escreveu e davam risada da cara dele. Ele era motivo de chacota. Ainda por cima, chegou a dizer que, “se os clubes aceitarem atletas assim, em breve haverá um sistema de cotas para homossexuais”. Um juiz! Olha até que ponto pode chegar a mente do ser humano…

Mas essa visão, infelizmente, não é exclusiva dele. Em proporções menos drásticas, é verdade, mas ela ainda permeia toda a sociedade. Você acredita que isso te impediu de alçar voos maiores na carreira?

Pela mística que há no futebol, de que é importante jogar em Barcelona ou Real Madrid, talvez sim. Mas, sem esses pensamentos, olho com orgulho para a história que construí em grandes equipes. Eu cheguei à Seleção Brasileira. Até me lembro de um comentário que ouvi à época, do Neto, em que ele dizia “esse, sim, chegou à Seleção por méritos, por estar jogando muita bola”.

E você voltou pior da Seleção? Dizem que, depois daqueles dois amistosos do início de 2008 (contra Irlanda e Suécia, ambos como titular), você nunca mais foi o mesmo…

As pessoas falam que eu voltei de salto alto, sem humildade, mas não acho que tenha sido isso. Cheguei até a ter ofertas de clubes da Alemanha e da Itália – como a Roma, por exemplo, que ofereceu 12 milhões de euros -, mas preferi ficar. A questão foi que o meu retorno se deu justamente em um momento em que a equipe já não conseguia render tanto quanto antes. Naquela temporada, tivemos muitas dificuldades para manter o ritmo dos dois anos anteriores. Fomos campeões brasileiros, mas até a última rodada não tinha nada definido.

Uma parte das explicações para as suas conquistas está no fato de o futebol estar cada vez mais físico?

Acho que sim. Enquanto o processo de transição de um futebol mais técnico para um futebol mais físico e tático entrava em fase final, eu já estava neste segundo estágio. Sabia das minhas limitações, e também sabia da minha força e resistência. Já tinha também a versatilidade que me marcou nos anos seguintes, já que os treinadores poderiam se valer dela para mudar a formação tática de suas equipes sem queimar substituições.

 

“Uma aposentadoria no São Paulo fecharia a minha história como profissional com chave de ouro, mas sei que isso é praticamente impossível. As pessoas têm o poder de esquecer do que é belo e ficou na história com muita facilidade”

 

Aos 31 anos, quase 32, quais são os seus planos para o futuro?

A minha ideia sempre foi parar no final de 2018, pouco antes de completar 36, mas algumas pessoas me chamam de louco. Elas acham que, com o meu condicionamento físico, poderia fazer o que o Zé Roberto (meia do Grêmio) está fazendo agora. Vamos viver, então. Mas, quando perceber que já não estou mais em condições ideais, vou parar. Não vou me arrastar em campo, manchando tudo o que já fiz.

Ainda existe a vontade de jogar no futebol europeu?

Não. É claro que não direi “nunca”, pois é uma palavra muito forte. Seria uma nova realização em reta final de carreira. Mas acredito que, até pela minha idade, receber ofertas dos centros mais privilegiados da Europa é bastante difícil. Em relação a clubes estrangeiros em geral, tive uma proposta agora, antes de vir para o Vitória, do Kawasaki Frontale (clube da primeira divisão japonesa, que foi, inclusive, a casa do atacante Hulk entre 2005 a 2006). Mas a proposta não era tão boa assim e preferi ficar por aqui, em um país onde me sinto à vontade.

E o clube ideal para se aposentar seria o São Paulo?

Acho que seria legal. Fecharia a minha história como profissional com chave de ouro. Mas sei que é praticamente impossível. As pessoas têm o poder de esquecer das coisas com muita facilidade. Querem logo coisas novas e acabam deixando para trás o que é belo, o que ficou na história. Mas é uma cultura. Não adianta eu querer mudar.

Qual foi o ápice da sua carreira? Um clube, um lance, um momento…

O clube foi o São Paulo, principalmente entre 2007 e 2008, por tudo o que ganhei. O lance foi o carrinho que dei no Ronaldo para salvar um gol (pela 26ª rodada do Brasileirão 2009). E o momento foi a conquista do Mundial de 2005, por estar entre os melhores e acabar com a falácia de que sul-americanos não eram capazes de ganhar dos europeus.

Richarlyson, Alecsandro ou Lela?

Lela. Sem dúvidas. O meu pai jogava demais. E isso quem fala nem sou eu, são os mais antigos mesmo. O Jorginho, por exemplo, sempre diz. Se eu jogasse 10% do que o meu pai jogava, seria titular por dez anos seguidos no Barcelona.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Marina Uezima/ConexãoFut.com.br