Uma morte que não entristece

Julio Humberto Grondona AFA

Qualquer coisa que se escreva a respeito do futuro da AFA, sobre o que virá depois da morte de Julio Humberto Grondona e o fim de sua presidência vitalícia no futebol argentino, é mera especulação. Não há praticamente nenhum dirigente que não tenha coexistido com Grondona no posto mais alto da pirâmide, então entramos em uma dimensão ainda desconhecida.

Porém, pode-se escrever – e muito – sobre o seu passado, o seu legado, os seus 35 anos (35 anos!) como comandante da maior paixão dos argentinos. Três papas, a última ditadura militar, a Guerra das Malvinas, o governo radical de Alfonsín, a década menemista, o governo radical de De La Rúa, os cinco presidentes em uma semana, o interregno duhaldista, a década kirchnerista. A caída do Muro de Berlim e da União Soviética, a Guerra do Golfo, a morte de Pablo Escocar, o 11 de setembro de 2001, a invasão dos Estados Unidos no Iraque, Osama Bin Laden e sua morte, os aviões malaios, a abdicação do Rei Juan Carlos. Tudo isso aconteceu. E, durante todos esses episódios, era Julio Humberto Grondona quem controlava a AFA com o mesmo pulso firme de sempre.

O mundo do futebol, esse que o temia e vivia das migalhas que às vezes caiam do cada vez mais suculento prato da Rua Viamonte, despediu-se o homenageando – alguns que o criticavam, inclusive, e que mudaram de discurso depois de sua morte. O povo, no entanto, essa mistura gigantesca e tão imprecisa, não se entristeceu, nem se despediu de “um caudilho” ou de “um grande dirigente”.

Aquele que é apaixonado por futebol de verdade – a testemunha de como suas instituições foram esvaziadas sob as mãos de Grondona – não irá estranhar. Porque esse mesmo torcedor é o que observou como primeiro os barras se apoderaram das tribunas para depois alcançar clubes e, por último, Mundiais e a Seleção. Os negócios que diferentes torcidas fizeram no Brasil, com ingressos recebidos desta condução grondoniana, são assustadores. Os sinais de que o Julito (filho de Don Julio e treinador da seleção sub-20) está envolvido nas revendas de ingressos não são à toa, e tampouco são por acaso os indícios de que outros dirigentes – e até mesmo Luis Segura, o presidente interino da AFA – estão neste jogo.

A gestão do selecionado nacional foi a melhor coisa do ciclo Grondona – e isso porque já faz 21 anos que a Argentina não obtém um título entre os adultos. O próprio Grondona reconheceu mais de uma vez que teve sorte de assumir em 1979, a mesma época da aparição de Diego Armando Maradona. Aquele garoto que driblou a todos no Japão, durante um Mundial juvenil, foi o que levou a Albiceleste ao título da Copa do Mundo de 1986, no México, e ao vicecampeonato na Itália, quatro anos depois. A impunidade era tanta que, nos últimos anos, Grondona e o seu filho se deram ao luxo de atacar o ídolo durante o Mundial do Brasil, chamando-o de pé frio.

Sabella veio a recompor as coisas logo após um período tenebroso que havia se iniciado após a saída de Pékerman, em 2006. Enquanto deixava a seleção principal aquele que havia sido um acerto enquanto foi treinador das equipes juvenis, não apenas chegava Alfio Basile, como também se firmava um contrato com a empresa russa Renova, a quem a AFA cedeu os direitos de organizar amistosos. Era o benefício econômico à frente das ambições esportivas. Um descompassado Basile, o ciclo de Maradona e o périplo de Sergio Batista deixaram a seleção argentina em um patamar humilhante.

Apenas uma oposição enfrentou o homem de Sarandí durante os 35 anos de reeleições indefinidas na AFA: Teodoro Nitti, que somou um único voto. Abstenções e ausências em um comitê executivo foram o máximo obstáculo que Grondona, político de uma estatura superior, chegou a enfrentar – fazia e desfazia ao seu modo, e tudo passava por suas mãos. Sem falar inglês nem saber como se manejava uma calculadora, chegou ao cargo de vicepresidente da Fifa. Durante certo tempo, presidiu, ainda, o comitê de finanças de uma das multinacionais mais importantes do mundo. O seu peso, que vinha a partir das sombras, também foi sentido na Conmebol.

Se não tinha dissidências internas, a que pese declarações de dirigentes supostamente da oposição, tampouco sofreu infortúnios jornalísticos. O contrato que a AFA firmara com o Grupo Clarín para torneios e competições assegurou blindagem à sua figura e a possibilidade de chegar a todos os rincões do país aos seus sócios.

O pulso de Grondona era tão hábil como o de Roger Federer. Quando não pôde mais obter vantagens desta relação, analisou a jogada e se aliou com o Estado Nacional e um governo de traços peronistas, apesar de sua ligação afetiva com o radicalismo. Nas transmissões esportivas, o (mesmo) narrador destacava as maravilhas do oficialismo com o “Fútbol para todos”.

Aos seus inimigos, tratava de cooptá-los. Com esse ambiente borgiano, evitou a formação da Liga Argentina de Futebol, no início dos anos 90, quando um grupo de dirigentes pensou em arquitetar um projeto similar ao da Premier League inglesa ou de La Liga espanhola. Foi nesta década em que o projeto da TV e da AFA tornou-se realidade: Boca e River se soltaram dos outros três grandes (Independiente, Racing e San Lorenzo) e alcançaram um futebol inigualável em relação a ingressos e repercussão midiática.

Ninguém queria sair da linha, pois o temor por represálias era enorme. Com clubes asfixiados economicamente, a ajuda para os amigos e o rigor para os inimigos, foi gerado um mar de cabeças baixas. Neste mundo de cegos (e de mudos), Grondona era rei. O homem de Sarandí não apenas presidia, mas também achava que era a AFA – assim como Luis XIV pensava que era o Estado francês. Apenas uma solução biológica, assim como aconteceu com o ditador espanhol Francisco Franco, poderia acabar com a sua hegemonia. Agora, com ainda muitas coisas a serem analisadas, o futebol argentino precisa definir o que quer fazer de seu futuro.

Diego Huerta, editor do Cultura Redonda, é jornalista. No Twitter, @diegofhuerta

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