O futebol mundial depois de Don Julio

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Um mês após a perda do líder que parecia eterno, os ânimos já vão se tranquilizando. Questionado e polêmico, mas de enorme capacidade política e grande poder de adaptação às distintas situações que se apresentaram em seu caminho gerencial, Julio Grondona se transformou em um homem tremendamente influente dentro e fora das fronteiras da Associação Argentina de Futebol.

Por seu escritório passaram questões nacionais, continentais e mundiais, sejam elas de interesses puramente futebolísticos ou de ordem política – e, em cada uma delas, Don Julio soube superar todos os questionamentos e, com maestria, tirar proveitos políticos quase pessoais, que foram refletidos notoriamente no crescimento de seu poder como dirigente.

Com isso, conseguiu manter-se no cargo máximo da entidade do Argentina do esporte mais popular do mundo durante mais de três décadas, convertendo-se em padrinho do futebol sul-americano no âmbito global e alcançando, a partir de uma árdua negociação, a chegada ao poder da Fifa de Joseph Blatter após a saída de João Havelange, em 1998.

O futebol argentino começa a perguntar-se quais são os caminhos a seguir no momento, enquanto distintos grupos interessam-se pelos brechas que se abriram a partir das eleições de 2015. Com o compromisso pré-adquirido do torneio de aproximadamente 30 equipes, a dirigência argentina trata de inventar algo para comportar a todos. Mas atentos à árvore deixamos de ver a floresta do futuro do futebol mundial sem o antigo manda-chuva da AFA e vice-presidente da Fifa.

A vaga que Grondona deixou na Fifa foi rapidamente ocupada pelo uruguaio Eugenio Figueiredo, que, por sua vez, foi substituído por Juan Ángel Napout, ex-presidente da Associação Paraguaia de Futebol. E, embora chegue à vice-presidência do órgão principal do futebol no mundo, Figueredo – um homem bastante questionado dentro do Uruguai – carece do peso que Grondona havia alcançado com Blatter.

Em tempos onde a continuidade de Blatter à frente da Fifa não é bem-vinda no continente europeu – como ficou claro nas declarações de Michel Platini, uma das ameaças mais importantes para o atual presidente -, a morte de Grondona resulta de uma maneira muito inoportuna para o suíço, e também estabelece um cenário que deixa descoberta a possibilidade de uma nova ordem mundial de futebol, dirigido pela Uefa e com muito menos voz do que deveria para a América do Sul.

Com a necessidade de voto de pelo menos dois terços dos afiliados da Fifa, e com outras centenas de federações por aguardar – distribuídas por Ásia, África e Oceania, além de América Central e Caribe, que fornecem muito mais sustentação política do que as dez federações sul-americanas -, fica claro o panorama que se deve imaginar quanto a questão é dirigir promessas de novos aspirantes a cargos importantes em Zurique.

Outro tema importante que pode ser colocado na mesa de discussão é o formato das Eliminatórias para o Mundial. Uma dirigência mais ciente das necessidades dos grandes clubes do velho continente pode por em risco o sistema de todos contra todos para retomar um formato mais curto.

Por mais que esteja a critério de cada associação continental a determinação do formato de suas eliminatórias, não é de estranhar que a questão possa ser revista e trazer outra dor de cabeça às federações sul-americanas que teriam menos vagas e mais riscos de eliminação em um torneio mais rápido e com menor margem de erro. Neste caso, a melhor saída para a Conmebol provavelmente seja a união com a Concacaf, utilizando o aumento da quantidade de seleções como justificativa para manter-se o calendário extenso.

Por todos os motivos expostos, tem de ser seguida de perto a evolução política e organizacional do futebol, com atenção especial para as importantes mudanças a curto e médio prazo, que demonstram a superlativa influência de um personagem que, embora demonizado externamente, era tão louvado pelas mais altas estruturas do futebol mundial.

Nicolas Di Pasqua é escritor do Cultura Redonda. No Twitter, @NicoDiPasqua

Foto: Damian Dopacio

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