Reformulação branda, horizontes expandidos

Torcedor Neymar Brasil Copa do Mundo 2014 - Pedro Ladeira Folhapress

Na primeira convocação de Dunga em sua segunda passagem pela Seleção Brasileira, as impressões foram mais positivas do que negativas. Por mais edificante que a traumática goleada alemã possa vir a ser para as estruturas futebolísticas do nosso país – abrindo de vez o debate pela democratização da CBF, o fim do monopólio da Rede Globo, a intensificação de investimentos em categorias de base, o saneamento fiscal dos clubes e outras questões essenciais -, no âmbito técnico poderia ter sido dado um passo ainda mais atrás do que foi a escolha de Dunga como técnico. Não houve, porém.

Depois de fracassos, tornou-se rotina vociferar contra tudo, acreditar que quase nenhum jogador merece uma nova oportunidade e, então, cobrar uma nova fornada de atletas. Os dirigentes brasileiros têm uma quedinha por “início, meio e fim, início, meio e fim”, enquanto outros países, obviamente mais evoluídos, tentam engatar “trabalho, trabalho e Copa, mais trabalho, ainda mais trabalho e outra Copa”. Mas com essa geração, pelo menos, já existe relativo consenso de que o seu talento é tudo o que temos – o que, com Neymar, Oscar, Philippe Coutinho e companhia, não é tão pouco quanto adoram dizer.

A começar pelos amistosos contra Colômbia, no dia 5 de setembro, e Equador, no dia 9, são incontáveis os ganhos que uma reformulação mais branda pode trazer. E o número de remanescentes da lista final de Felipão, que alcançou os dois dígitos, tende a aumentar em um futuro próximo, já que Thiago Silva está lesionado, Marcelo ainda é um dos melhores laterais do mundo, e não parece inteligente abrir mão por completo de Paulinho, Bernard, Daniel Alves e Hernanes.

Nos metros finais do gramado, a ausência de um centroavante de ofício foi a melhor das notícias. Não há um camisa 9 que mereça a lembrança de Dunga, e o resgate da ideia que Mano Menezes tentou implementar em 2012, poucas partidas antes de ser covardemente demitido, chega a ser um colírio para os olhos cansados de assistir à execução de conceitos ultrapassados e nocivos à movimentação constante do setor ofensivo, característica fundamental para um time que queira ser considerado “moderno”.

Há pontos preocupantes, é claro, como as lacunas que existem no gol, sem um substituto à altura para Júlio César, e na intermediária defensiva, carente de volantes que ofereçam algo mais do que as infiltrações de Fernandinho, Elias e Ramires. Para que o protagonismo vista verde e amarelo, a construção de jogadas precisa acontecer já no primeiro tijolo.

Além disso, ficaram de fora nomes que deveriam ser lembrados, como o goleiro Diego Alves, os laterais Rafinha e Alex Telles, o volante Rômulo e os meias Lucas, Roberto Firmino e Anderson Talisca. Mas é impossível convocar todos desde o início do ciclo até 2018.

Os questionamentos, por enquanto, devem se restringir à maneira como o Brasil de Dunga irá atuar. Mais de quarenta dias após o massacre alemão, a Seleção já tenta respirar ar puro. E a permanência de boa parte do plantel semifinalista no último Mundial oferece tantos motivos para acreditar que isso é possível quanto o estilo de jogo do treinador e a podridão da CBF remam para o outro lado.

A primeira lista de convocados de Dunga (19/08/2014) – Goleiros: Jefferson (Botafogo) e Rafael Cabral (Napoli); zagueiros: David Luiz (PSG), Marquinhos (PSG), Miranda (Atlético de Madrid) e Gil (Corinthians); laterais: Maicon (Roma), Filipe Luís (Chelsea), Danilo (Porto) e Alex Sandro (Porto); volantes: Luiz Gustavo (Wolfsburg), Fernandinho (Manchester City), Ramires (Chelsea) e Elias (Corinthians); meias: Oscar (Chelsea), Philippe Coutinho (Liverpool), Willian (Chelsea) e Éverton Ribeiro (Cruzeiro); atacantes: Neymar (Barcelona), Hulk (Zenit), Diego Tardelli (Atlético-MG) e Ricardo Goulart (Cruzeiro)

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

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