Em busca do passado perdido

Fabio Capello Russia Copa do Mundo 2014 - Ivan Sekretarev AP Photo

Futebol e política caminharam juntos em alguns momentos da história. Há quem diga que um está intimamente ligado ao outro. Há quem considera essa ideia uma bobagem. Fato é que, 29 anos depois do fim da Guerra Fria, Rússia e Estados Unidos deixam em aberto uma crise internacional capaz de adentrar à Copa do Mundo de 2018, sediada no frio país europeu. Assim como no Brasil, o povo russo sente no Mundial a chance de emplacar a sua seleção como uma nova força emergente no esporte, igualando sua posição política na nova ordem mundial, capaz de recordar disputas olímpicas e políticas de tempos não tão distantes.

Desde que a União Soviética foi desfeita, em 1989, junto com a queda do Muro de Berlim, o futebol da Rússia nunca esteve em melhor momento. Mesmo eliminada na fase de grupos na Copa do Mundo no Brasil, a equipe vê na competição em sua casa o momento propício para um recomeço com a bola nos pés. Como não poderia ser diferente, a ideia é retornar aos tempos da antiga comunidade comunista – dentro de campo, claro –, que alcançou seu ápice na Inglaterra, em 1966, quando fora quarta colocada. Essa é a esperança dos russos.

Os números dão luz ao otimismo. Sem nunca passar da fase de grupos como Rússia, nas disputas de todas as Copas de 1994 até 2014, incríveis 18% da população considerava que a seleção poderia conquistar o título no Brasil. Pareciam embebedados relembrando as disputas olímpicas, de 1952 até 1988, competições duramente rivalizadas com os americanos e de quase 400 ouros conquistados. Porém, os realistas existiam antes das partidas. Eram 7%, segundo a imprensa local, aqueles que consideravam impossível a classificação contra Argélia, Coreia do Sul e Bélgica, membros do Grupo H. E foi exatamente isso o que aconteceu.

A euforia mostra o potencial de crescimento do futebol em seus gramados verdes, e brancos de neve, durante o inverno. Nos últimos anos, o leste europeu se abriu para o mercado futebolístico, casos da Ucrânia, antiga integrante da URSS, e, agora, a Rússia. O atacante brasileiro Hulk é um exemplo. Ele custou 60 milhões de euros (hoje, por volta de R$ 185 milhões) aos cofres do Zenit, preferido em meio a gigantes europeus, como o Chelsea. Zenit que disputará uma vaga na Liga dos Campeões deste ano, contra o Standard Liege, da Bélgica, e recentemente aplicou 8 a 1 no Campeonato Russo. Uma força em ascensão.

Aprender com os estrangeiros é uma das táticas para fortalecer a seleção nacional, mas o treinador estrangeiro do selecionado terá trabalho a fazer. Fabio Capello, nascido em San Canzian d’Isonzo, na Itália, restringiu o projeto nacional para quem atua em times locais. Em 2014, trouxe ao Brasil um time experiente, com oito jogadores acima dos 30 anos, o que mudará para o campeonato em casa.

Casa ainda em preparação, mas com conflitos ideológicos acirrados com os americanos pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria. Culpa da ação de rebeldes separatistas na Ucrânia, que sonham em se anexar aos russos. O presidente Putin prefere ignorar o diálogo e ameaça até mesmo países europeus, que sempre precisaram do abastecimento do gás vindo da gigante terra que o intransigente governa.

Voltando à métrica de Capello, o seu trabalho será encontrar jovens talentos, uma tarefa sempre complexa, ainda mais onde o futebol não é um esporte historicamente forte. Porém, sete dos selecionados no Mundial de 2014 ano terão até 27 anos em 2018. A juventude de hoje é a experiência do dia seguinte, ainda no auge do que podem apresentar como homens gols, homens que evitam gols.

Kokonin se apresenta como o nome com mais talento para liderar a renovação que tem início agora, pouco mais de um mês após o apito final no Maracanã. Com 23 anos, o jogador do Dínamo de Moscou é um dos já nascidos em solo russo, não mais soviético. Tem 137 jogos desde os primeiros chutes no futebol, de 37 gols marcados. Nada espetacular para o Brasil, mesmo em carência de craques. Para os russos, um grande talento. E outros nomes ainda vão surgir até o dia 8 de junho de 2018, a data da final.

Até lá, 32 seleções se enfrentarão em 11 estádios diferentes para, enfim, conhecermos os dois sobreviventes em busca de um novo título mundial. Como no Brasil, o povo russo viverá a euforia de ser o centro do mundo em tempos que podem ser conturbados politicamente. No futebol tudo pode acontecer, mas dificilmente um 7 a 1 acabará com o sonho dos anfitriões, o que faria derreter o coração frio de qualquer torcedor indiferente.

Arthur Stabile é jornalista. No Twitter, @ArthurStabile

Foto: Ivan Sekretarev/AP Photo

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