Da angústia à glória

San Lorenzo Libertadores 2014 - Reuters

Doze anos de espera para voltar a ganhar um título continental. Uma história repleta de experiências e sentimentos que ansiavam a glória. San Lorenzo não jogou como deveria em sua casa, mas conseguiu por fim a anos de sofrimento. Pela primeira vez, conquistou a Copa Libertadores da América – e logo em um período em que renasceu institucionalmente.

Há dois anos, o clube celebrava o triunfo diante do Instituto de Córdoba na repescagem para não ser rebaixado no campeonato nacional. A nova dirigência trouxe distintos elementos para que fosse possível voltar a acreditar. E para que uma nova fosse iniciada sem que se fizesse necessário um projeto de longo prazo. A espetacular defesa de Torrico diante do Vélez, na última partida do Torneio Inicial 2013, coroou uma grande campanha, e transformou em campeã nacional uma equipe que não tinha títulos desde 2007. Essa foi a base: a classificação para novamente jogar a Libertadores e, enfim, conquistar a América.

A transição de um modelo para outro em pouco tempo levou a outro estilo. Juan Antonio Pizzi, o técnico da época, decidiu encarar a sua primeira experiência na Europa, mais precisamente no Valencia, da Espanha, e os dirigentes contrataram Edgardo Bauza. Conhecedor das instâncias que estavam a caminho, graças à sua passagem pela LDU, do Equador, o “Patón” encontrou opções e terminou constituindo um sistema que quase nunca foi alterado durante a competição. Mudou para melhor, e formou uma equipe rápida, de muitas qualidades técnicas e de perigoso ataque pelas laterais.

Chegou à final sendo o segundo pior classificado da fase de grupos, depois daquela épica noite como mandante em que a vitória por 3 a 0 sobre o Botafogo significou o ingresso para jogar contra o Grêmio – curiosamente, de campanha pior que o San Lorenzo, apenas o Nacional do Paraguai, adversário na decisão.

Sendo claro candidato ao caneco, o conjunto de Bauza havia conseguido se impor em Assunção, mas sem alcançar uma diferença de gols, pelo empate agônico de Santa Cruz. E no Nuevo Gasómetro viria a encontrar um adversário que mostrou as suas melhores virtudes, essas mesmas que deixaram em seu colo a final do torneio, a que pese as suas limitações. Um time que complicou as intenções argentinas desde o primeiro minuto de jogo, mas que não aproveitou as oportunidades criadas.

A partir de uma pressão bem sincronizada para a recuperação de bola, e também pela saída rápida em busca dos espaços vazios, o Nacional alcançou um bom rendimento como visitante. O trabalho coletivo era o cimento de uma grande participação paraguaia, que sempre reduzia o poder de fogo dos mandantes. Ainda assim, Torrico defendeu apenas uma bola vital – a outra, o conjunto paraguaio não escolheu o melhor caminho para concluí-la. Escolheram arriscar desde o princípio, mas não alcançaram a vantagem que deveria ser deles por tudo o que jogaram nos 30 minutos iniciais.

Sem um bom toque de bola pela faixa central nem um primeiro passe que fornecesse claridade para o restante do time, o elenco argentino careceu de aproximações e tinha fechados os corredores que deveriam ter sido explorados pelos laterais Más, pela esquerda, e Buffarini, pela direita. Com o passar do tempo, Ortigoza se soltou até as zonas mais ofensivas para tabelar com Romagnoli. Mercier, anulado pela excelente dupla de volantes rival, composta por Torales e Riveros, com a bola nos pés não pôde ajudar tanto quanto de costume.

Mas um erro grosseiro inclinaria a balança para o lado do Ciclón. Depois de um cruzamento de bola parada da direita, Cauteruccio arrematou e a bola bateu na mão do lateral-direito Coronel. Um salto ousado e dissimulado dentro da área resultou em um pênalti que Ortigoza tratou de converter. E seria o ponto de inflexão no confronto, porque, apesar de os comandados por Bauza não terem conseguido dominá-lo, não passaram mais sobressaltos após a abertura do placar.

A ausência de Piatti, novo reforço do Montreal Impact, do Canadá, foi importante, ainda mais para um esquadrão que notoriamente careceu de mudanças de ritmo na intermediária ofensiva. Com pouca força nas transições e com um ataque estático, impossibilitado de originar espaços, cresceu a figura de Romagnoli – desta vez, diferente do que havia acontecido no início da Libertadores, com Matos e Blandi, a dupla de camisas 9 não funcionou para Bauza.

Aquele que esteve na Mercosul de 2001 e na Sul-Americana de 2002 quando era a joia dos times de Pellegrini e Insúa tornou-se a figura deste campeão. Acompanhado pela qualidade dos passes de Ortigoza e pelo sacrifício a partir das sombras de Mercier, pôde se conectar com maior assiduidade a Villalba para criar perigo pelos flancos.

A entrada de Verón permitiu correr pelo território adversário e tomar ar. E a ação que terminaria de consagrar o conjunto azul-grená veio da única oportunidade clara de ataque do Nacional durante o segundo tempo – Gentiletti, de grande partida na ida, apesar de sua falha no lance final, interceptou uma bola que tinha claro destino de gol para mandá-la para escanteio.

E, mesmo sem tranquilidade, sofrendo em alguns momentos e deixando claro como Piatti fazia falta, o San Lorenzo foi capaz de conquistar a Copa Libertadores. Uma competição que sempre lhe foi negada, mas que desta vez olhou para ele e sorriu. E diante de um rival que engrandeceu ainda mais o troféu, por sua ordem e seus princípios coletivos.

O resultado adverso na altitude do Equador para o Independiente del Valle poderia ter significado a eliminação, mas Piatti respondeu contra o Botafogo e a noite que prometia ser interminável transformou-se em deleite. Logo, os argentinos deixariam pelo caminho mais duas equipes brasileiras, alcançando a final ainda na primeira partida da fase anterior, com uma goleada inapelável ante o Bolívar. A mudança em 24 meses foi radical: deixou a angústia, quando estava próximo do abismo, e alcançou a glória. Uma glória em níveis continentais.

Nico Galliari é escritor do Cultura Redonda. No Twitter, @nico92galliari

Foto: Reuters

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