Ineditismo em segundo plano

Brian Montenegro Nacional Paraguai Libertadores 2014 - Fernando Alfonso Reuters

O dia 6 de agosto de 2014 já raiou para todas as cidades sul-americanas, mas nenhuma delas vê um sol tão brilhoso quanto Assunção. A partir das 21h15 desta quarta-feira, as atenções daqueles que amam futebol estarão voltadas para o estádio Defensores del Chaco. Nacional-PAR e San Lorenzo-ARG medem forças pela primeira vez em busca do título da Copa Libertadores da América 2014 – um duelo que merece muito mais atenção do que vem recebendo.

A começar pelo ineditismo, que é um fato não apenas para o confronto em si em uma decisão de Libertadores, mas também para cada uma das equipes. O San Lorenzo já foi semifinalista em três oportunidades, incluindo a primeira edição do torneio, em 1960, mas nunca alcançou o último degrau. E o Nacional, léguas distante de Olimpia e Cerro Porteño, os mais tradicionais do Paraguai, jamais havia sequer passado da fase de grupos em suas seis participações anteriores.

As duas equipes são presenças improváveis em uma fase do torneio que nos últimos anos tem se acostumado a ser povoada por brasileiros. A Libertadores tem ao menos um representante tupiniquim entre os finalistas desde 2005. Nos últimos quatro anos, inclusive, os campeões foram brasileiros.

Há vida fora daqui, no entanto. E muita. Com organização tática e planejamentos administrativos com alguns anos em curso – cada um à sua maneira, naturalmente -, Nacional e San Lorenzo eliminaram equipes mais fortes e chegaram à decisão com méritos.

O fato de terem construído as duas piores campanhas entre os 16 classificados para o mata-mata chama a atenção, mas ao mesmo tempo abre margem para que sejam analisados os seus méritos e defeitos – até porque apenas na última edição, com o Atlético-MG de Cuca, o troféu foi abocanhado pelo time de melhor campanha durante a fase de grupos.

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Os paraguaios sofreram alterações em relação aos três últimos títulos nacionais, conquistados em 2009, 2011 e 2013, mas ainda têm as suas armas bem distribuídas por Gustavo Morínigo, técnico do clube desde abril de 2012. Ele assumiu ainda antes do término da Libertadores de 2012, encerrada prematuramente graças ao infeliz chaveamento separado para os guaranis: o Corinthians, que viria a ser o campeão, e o mexicano Cruz Azul.

Em 2014, o Nacional leva perigo principalmente com Benítez pela esquerda, um frequente protagonista de jogadas de velocidade com Melgarejo e Orué. Como referência do ataque, Montenegro ainda não é garantia entre os titulares, por sentir incômodos na coxa direita, e essa dúvida pode abrir espaço para o experiente Fredy Bareiro, de 32 anos, vice-campeão da última edição com o Olimpia.

Preocupante, por outro lado, é o sistema defensivo do time que será mandante na partida de ida, embora o retrospecto durante as fases finais tenha sido bem mais empolgante do que o anterior a ela: quando forçadas pela faixa central, as estruturas coletivas costumam ruir.

Por mais que sofrer apenas três gols nos últimos seis jogos seja um sinal de solidez, não são tão raros os espaços à frente da grande área, que permitem, por exemplo, lançamentos rasteiros na diagonal. Nestas ocasiões, os comandados por Morínigo costumam provar o próprio veneno, ainda que os laterais Coronel e Mendoza sejam companhias constantes para os zagueiros Piris e Cáceres.

E a suspensão de Riveros, responsável pelas bolas paradas e pelo primeiro combate na meia cancha, também não é notícia das mais animadoras. Prestes a completar 26 anos, o volante é um dos pilares da Academia, ao lado de Torales, que goza de mais liberdade – e mais recursos – para atacar.

Nos argentinos, o otimismo é um pouco maior. O treinador Edgardo Bauza prefere rechaçar o peso do favoritismo, como é de praxe, mas essa responsabilidade, embora leve, é sua. O comandante já foi campeão da Libertadores com a LDU, em 2008, quando calou o Maracanã lotado por torcedores do Fluminense, e tem à sua disposição uma artilharia poderosa.

O desfalque de Ángel Correa, que há poucas semanas realizou uma cirurgia para a retirada de um tumor no coração, é bastante grave. Também não dá para negar que os cinco gols marcados na primeira semifinal contra o Bolívar-BOL estão longe de ser a regra nos atuais campeões argentinos. Mas, ainda assim, Piatti (que dificilmente jogará a partida de volta, por estar de malas prontas para o futebol canadense), Villalba, Romagnoli e Mauro Matos formam um quarteto de respeito.

O lateral Buffarini, meio-campista de origem, dosa bem as suas subidas ao ataque pelo lado direito, dando mais sustentação ao setor defensivo devido à ofensividade de Emmanuel Mas pela esquerda. E, na zaga, o lesionado Cetto será desfalque, cabendo a Fontanini ser o parceiro de Gentiletti, autor do único gol argentino contra o Cruzeiro, pelas quartas de finais, no Nuevo Gasómetro.

Os volantes Merciers e Ortígoza, a exemplo do que acontece no oponente, são dois dos pontos fortes do Ciclón. Não são capazes de reduzir a zero a debilidade dos finalistas no jogo aéreo defensivo, mas são imprescindíveis com a bola no chão. E ainda sustentam um conjunto que tem como característica a roubada de bola mais avançada, o que pode ser fatal diante de um time que apresenta tantas carências nos 30 metros mais próximos à sua meta.

Abrir mão de todos esses detalhes em nome de uma documentação reduzida da história – que é, no final das contas, a função social do jornalismo -, é de uma infelicidade sem tamanho. É válido lamentar a ausência de clubes brasileiros na decisão, mas haverá um jogo de futebol logo mais. E daqueles que valem a pena assistir.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Fernando Alfonso/Reuters

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