Méritos e riscos

Ganso São Paulo Brasileirão 2014 - Rubens Chiri saopaulofcnet

A tarde do último domingo sorriu para o São Paulo como talvez nenhuma outra havia sorrido em 2014. Além de vencer um clássico de bom nível técnico – e também de grande importância para a sequência da temporada -, o novo vice-líder do Brasileirão avançou um pouco mais em direção ao que Muricy Ramalho tem pensado para o seu time: um estilo menos vertical, que valorize o controle do jogo por meio da posse de bola e, de certa maneira, deixe para trás o pragmatismo excessivo de seus anos mais vitoriosos, que somava pontos com a mesma capacidade que tinha para enfileirar atuações nada agradáveis.

Com a combinação de Kaká, Ganso, Alexandre Pato e Alan Kardec, as chances de sucesso com apresentações mais interessantes crescem. O belo desempenho de Souza no meio de campo, o encaixe de Denilson e o correto trabalho de Álvaro Pereira na lateral esquerda também só corroboram com essa situação. E ainda há nomes a serem incorporados, como Luis Fabiano, de titularidade pouco questionável caso esteja em boas condições físicas.

Relativizações são possíveis para todos os nomes da linha de frente, naturalmente. Kaká não tem mais o mesmo vigor físico de outrora; por mais que venham sendo menos frequentes, os apagões de Ganso ainda existem; a alienação de Pato, de tão gritante, é quase caricata; e a limitação técnica de Alan Kardec, embora seja dono de um raro trabalho coletivo, também precisa ser levada em conta. Ainda assim, é inegável o poderio ofensivo são-paulino.

Dentre os fatores que podem complicar essa evolução, o principal é a tarefa constante que, prestes a completar um ano de seu retorno ao Tricolor, Muricy terá para manter vivos os sacrifícios táticos de seus atletas. Esse trabalho já teve de acontecer para que o São Paulo chegasse ao estágio atual, é claro, mas há diferenças relevantes entre o tempo limite para introduzir uma ideia em uma equipe e o período necessário para estabilizá-la e aprofundá-la.

Mais do que dizer a Ganso que a sua dedicação defensiva é importante para evitar as subidas produtivas do lateral-esquerdo de um concorrente direto, o comandante terá de convencer aquele que talvez seja o seu mais brilhante jogador a fazer o mesmo contra o Coritiba, em uma quarta-feira à noite, no Morumbi. Mais do que pedir o combate de Pato em cima de zagueiros e volantes em um clássico, terá de mecanizar esse comportamento, a fim de torná-lo uma arma contra todo e qualquer adversário.

Há outras duas questões fundamentais, ainda, que estão além da capacidade cognitiva e física de seus atletas: o real grau de conhecimento de Muricy Ramalho sobre tudo o que pretende implementar, já que são escassos os momentos de sua carreira em que o buscou; e a fortíssima concorrência do Cruzeiro, de regularidade espantosa, que enfraquece a esperança de qualquer adversário que sonhe em atrapalhar o seu bicampeonato.

Esse esforço para alcançar um patamar mais elevado no quesito “futebol bem jogado” é uma ótima notícia para o futebol brasileiro, que passa a ter em um de seus mais vitoriosos treinadores alguém não mais satisfeito com a eficiência dos contra-ataques e das bolas paradas. Mas, por enquanto, o São Paulo ainda tem problemas para resolver em todas as esferas possíveis. Se isso servir para equilibrar melhor a balança entre empolgação e desconfiança, é melhor que seja assim.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

Outras leituras recomendadas:
– Papai continua com a razão, por Marco Maciel
– O Palmeiras de Ricardo Gareca, por Gustavo Carratte
– Até onde o Flamengo pode chegar?, por Rafael Miguel