Falcão: “O futsal brasileiro ainda precisa de mim”

Falcão Futsal Seleção Brasileira - Luciano Bergamaschi CBFS 1

por Bruno Uliana e Bruna Somogyi

Dia 20 de março de 2014. Esse foi o dia em que Falcão acordou decidido a mudar de uma vez por todas a história do futsal. O craque abriu a sua conta no Instagram e escreveu um texto de despedida da Seleção Brasileira. Entre palavras tristes de quem estava dizendo adeus a um grande amor, Falcão acusou muito – atacou a índole de dirigentes da CBFS (Confederação Brasileira de Futebol de Salão), fez algumas denúncias de irregularidades e injustiças cometidas com ele e outros jogadores e, por fim, anunciou que não voltava mais a vestir a camisa amarelinha.

Houve uma mudança neste cenário, fruto de trocas no comando da CBFS em junho. No último domingo, o ala voltou às quadras com a Seleção Brasileira, e mostrou-se empolgado. Na ocasião, o Brasil venceu a Argentina por 4 a 1 em um amistoso que teve o seu grande protagonista do lado de fora das quadras, com 56.483 torcedores preenchendo as arquibancadas do Mané Garrincha, construído para a Copa do Mundo de futebol de 2014, e transformando a primeira partida de futsal a céu aberto naquela que registrou o maior público da história da modalidade.

Com os problemas antigos, todos tentavam imaginar o que seria da Seleção sem Falcão. A resposta para essa pergunta não era exata, foram poucos os testes com a nova formação da equipe, mas, de uma maneira mais ampla, era possível dizer que toda a estrutura do futsal brasileiro, e não apenas o time nacional, estava entrando em um período de enormes turbulências. A importância da volta do astro é incontestável.

O camisa 12 pretende se aposentar no final de 2016, quando acaba o seu contrato com o time Brasil Kirin, de Sorocaba. Pode parecer longe, mas não é – principalmente porque muitas outras questões dependem dele em atividade para seguir caminhando. Sincero, ele admitiu que ficou preocupado ao ver a debandada de patrocinadores da Seleção após o seu anúncio de aposentadoria. Do alto de sua relevância para o futsal, o craque teme pelo futuro do esporte no Brasil.

Nesta entrevista, concedida no final do primeiro semestre para a revista “Em Quadra”, Falcão abriu o jogo sobre passado, idolatria, possíveis substitutos, seleção e, principalmente, sobre como pretende deixar o futsal preparado para o cenário que irá se estabelecer com o fim de sua carreira como jogador.

Esse conteúdo foi uma produção de Bruna Somogyi, Bruno Uliana, Mauricio Rito e Rafael Zuanella para o Trabalho de Conclusão de Curso da pós-graduação em Jornalismo Esportivo e Multimídias da Universidade Anhembi Morumbi, e foi gentilmente cedido para o ConexãoFut.com.br.

Falcão Futsal Seleção Brasileira - Luciano Bergamaschi CBFS

Revista Em Quadra – Como e onde começou a sua história?

Falcão – Eu era mais um moleque que jogava bola na rua em São Paulo. Sou da zona norte, e não pensava em ser jogador. Às vezes, eu levava um potinho de iogurte para a escola, amassava e jogava com ele no intervalo. Frequentava o clube em que meu pai jogava bola também. Com 12 anos, o pai de uns amigos meus começou a jogar em um clube chamado Guapira, e me chamou para fazer um teste lá. Eu relutei, relutei, mas depois de um tempo acabei indo. Fui federado pela primeira vez de 13 pra 14 anos. Nunca joguei em escolinha, nunca participei de nada disso. A minha escolinha foi mesmo a rua, a escola. E foi assim que aconteceu.

Quando você percebeu que era diferente?

Na verdade, não percebi direto. Eu estava na quinta, sexta série e jogava com o pessoal da oitava. Os grandes sempre me chamavam para jogar, e eu ia, mas não imaginava “pô, eu sou bom, sou diferenciado”. Nunca pensei desta forma. Só com 16 anos mesmo, quando eu era juvenil do Corinthians e a equipe principal já me puxou. Eu ainda tinha três anos pra chegar na equipe principal, e não ia só pra preencher elenco – eu jogava um pouquinho. Acho que foi naquele momento, quando comecei a ganhar relativamente bem em comparação aos outros meninos que jogavam comigo, em que eu percebi que tinha um grande futuro no futsal.

E, neste início, qual foi a maior dificuldade?

Não posso falar que tive essas histórias tristes que as outras pessoas têm, não. Nunca tive problemas para pegar ônibus, por exemplo. Não que o meu pai fosse rico, mas ele tinha um açougue, e esse problema não existia comigo. A dificuldade maior era no dia a dia cansativo. Estudar de manhã, ir da escola para o açougue do meu pai, de lá para o treino. Eu chegava em casa morto e no dia seguinte era a mesma coisa. Mas logo depois, quando comecei a ganhar meu próprio dinheiro, o meu pai foi me liberando aos poucos.

 

“Seria muito cômodo dizer ‘já fiz minha parte, já ganhei o meu dinheiro, estou bem e que se dane o futsal’, mas, sem demagogia, o futsal brasileiro ainda precisa de mim”

 

Você tem noção da sua importância no esporte?

Hoje eu tenho. Um pouco mais, pelo menos. De uns três anos pra cá eu entendo, porque nunca mais joguei sem ser em um ginásio completamente lotado. Eu tenho acesso aos números de audiência de quando eu jogo e de quando eu não jogo. Os clubes em que jogo, geralmente, são os que mais passam na TV. Então tudo isso eu uso como discussão de contratos. Entendo que, de toda a mídia do futsal no mundo inteiro, eu tenho mais de 60%. Um atleta. Então é muita coisa.

Essas responsabilidades não são muito pesadas?

Não são, não. Um exemplo: esse time (o Brasil Kirin, de Sorocaba) só existe porque eu vim para cá. Um time novo, e que naturalmente vem mais 30 empregos com isso. Quando joguei em Orlândia, a cidade passou a investir mais porque eu fui pra lá. Jaraguá do Sul ficou conhecida há oito anos porque eu estive lá. Você pode falar nomes de jogadores de futsal, mas, se passar no aeroporto, ninguém sabe quem é. E o meu reconhecimento hoje é de um grande jogador de futebol. Isso é muito legal.

O futsal brasileiro precisa de você?

Tirando o egocentrismo e a demagogia, sim, ainda precisa. E é uma situação difícil, porque torço muito pelo meu esporte. Pra mim seria muito cômodo dizer “ah, já fiz minha parte, já ganhei o meu dinheiro, estou bem e que se dane o futsal”. Acho que a principal prova disso foi a minha saída da Seleção Brasileira, pra chamar a atenção para a gestão de lá. Talvez eu não sinta os benefícios caso as coisas mudem, mas as próximas gerações irão sentir. Daqui alguns anos, eu quero falar que não jogo mais futsal, e ainda ver a modalidade na TV, com as pessoas entendendo o que é, e com novos jogadores, novos ídolos.

E temos mais quanto tempo para encontrar um novo Falcão?

Tenho esse ano e mais dois de contrato. A princípio eu queria esse e mais um, mas a empresa exigiu que fosse esse e mais dois. Se chegar lá, daqui a dois anos, e eu estiver rendendo bem, com o time melhor, não dependendo tanto de mim, quero continuar jogando. Eu já me preparo muito para o momento de parar. Quero chegar nisso com direcionamentos para continuar levando a vida jogando bola. Mas parar de competir, acordar e não ter mais o treinamento, não deve ser fácil. E pensar que o que tenho, de ir para os ginásios e ter aquela paixão do público, às vezes dez mil pessoas gritando o meu nome, irá acabar. Isso é incomparável.

 

“Torço para que venha um substituto à altura, mas acho difícil que tenha alguém pronto para me substituir. Uma coisa é você ser um grande jogador, e outra é você conseguir ser um ídolo”

 

Tem alguém pronto para te substituir?

Em certos momentos eu acho difícil, porque uma coisa é você ser um grande jogador, outra coisa é você conseguir ser um ídolo. Como ídolo, você tem que jogar bem, saber falar, e hoje pouca gente se preocupa com isso. O cara tem que saber interagir com a torcida na hora certa, fazer gols importantes, resolver jogos e ganhar títulos. É uma junção de coisas. E o futsal brasileiro se acostumou com o Manoel Tobias, comigo. O próximo terá que fazer um pouco mais ou igual, porque sempre vai ter a comparação. Mas eu torço para que tenha. Quero que o futsal continue, para que daqui a dez anos eu possa dizer “está vendo esse esporte? Eu joguei isso aí. Meus números são esses aqui”.

Falando em Seleção, o que aquele post no Instagram significou exatamente para você?

Aquilo foi uma forma de chamar a atenção porque a Seleção nunca foi um exemplo de gestão. A gente conseguiu brigar por muita coisa. Às vezes a gente batia de frente com uma série de coisas, a gente engolia muita coisa em prol do futsal. O Edson Nogueira (diretor de seleções da CBFS até 10 de julho de 2014, quando foi dispensado por Renan Tavares, o novo presidente) ia entrar na presidência para concorrer com o Aécio (de Borba, que estava à frente da confederação desde 1979). Fizeram um acordo financeiro, onde o Aécio deu um cargo para ele e falou “você manda, mas eu continuo presidente, está bom assim?”. Eles se venderam para colocar lá dentro um cara sem argumentos, que não conhece o jogador de futsal, não conhece ninguém, nem onde joga… E o cara é meio “ditadorzão”, metido a mandão.

E quando você decidiu se aposentar da Seleção?

Eu comecei a brigar e o Edson Nogueira começou a cortar o meu nome da lista. O meu, do Neto, do Tiago, os jogadores que batiam de frente. E eu ia devido aos meus patrocinadores, que eram os mesmos da Seleção, que diziam “se o Falcão não for, eu saio”. Cheguei a fazer uma reunião lá onde eu falei “olha, eu sei que você não quer, mas você vai ter que me aguentar porque eu vou vir só de pirraça”. Falei para ele, e na frente de todo mundo. Depois ele simplesmente falou “não vai vir e acabou, quem manda aqui sou eu”. Neste momento eu tomei a minha posição. A Seleção Brasileira de Futsal tinha virado a Seleção do Edson Nogueira.

O futsal está indo por um buraco sem fim?

Eu acho que está. Com esse tipo de gestão, o futsal tem tudo pra ir para o buraco. Por enquanto, os clubes vivem independentes da confederação. Mas vai chegar o momento em que isso chega aos clubes, ao salário dos jogadores, e irá diminuir a quantidade de clubes. Acaba virando uma bola de neve, e isso não pode acontecer. Toda empresa que investe quer uma organização correta, onde ela não fala “está tudo errado, uma bagunça, e prefiro apostar em outro esporte”.

Bruno Uliana, repórter do Diário Lance!, e Bruna Somogyi, assessora de imprensa, são dois dos responsáveis pela revista “Em Quadra”. No Twitter, @brunouliana e @brusomogyi

Foto: Luciano Bergamaschi/CBFS