A importância dos pontos corridos para o futebol brasileiro

Cruzeiro Brasileirão - Pedro Vilela Getty Images

A última rodada do Brasileirão de 2014 se aproxima, e um cenário marcado por confrontos decisivos é tudo o que não se vê: o troféu veste a camisa cruzeirense há tempos, o vice-campeonato é uma garantia matemática do São Paulo, o meio da tabela está infestado por equipes que nada almejam e pelo menos dois dos quatro rebaixados já são conhecidos.

Nas pontas, só há dois lugares em disputa: um que dará a Palmeiras, Vitória ou Bahia a chance de permanecer na primeira divisão em 2015, e outro que dispensará de Internacional ou Corinthians a perigosa necessidade de disputar uma etapa prévia à fase de grupos da Libertadores – não custa recordar que, até a festa marroquina contra o Atlético Mineiro no último Mundial de Clubes, colorados e corinthianos eram os únicos brasileiros a terem sofrido eliminações exageradamente precoces em torneios internacionais.

Tal cenário é bem pouco empolgante, e bate de frente com a enorme competitividade que costuma orgulhar os brasileiros que olham para os outros países importantes no mundo do futebol sem o complexo de inferioridade que tanto faz mal à saúde – em nenhum lugar da Europa, afinal, existe uma liga que frequentemente tenha início com mais do que três ou quatro times com chances reais de título.

O perigo deste quadro, no entanto, reside nos clamores pelo fim dos pontos corridos e o retorno do mata-mata. Noves fora os torcedores, que têm o direito de gritar por o que quiserem sem imaginar as consequências, o preocupante é que esse hábito também é compartilhado por um punhado considerável de jornalistas e mais um tanto de dirigentes – que, reza a lenda, são seres que exercem o dom do raciocínio.

Desde 2003, ano em que a fórmula vigente estreou por aqui, foram seis as vezes em que o campeão foi conhecido antes da rodada final. Em metade das edições, portanto. Três equipes brigavam pelo título em 2010, outras quatro fizeram o mesmo em 2009, e seis levaram esperanças de permanecer na elite para a rodada derradeira de 2008. Esse argumento já seria algo para sinalizar que a tal emoção não é uma exclusividade do mata-mata, mas a questão não está em arrancar ou não suspiros dos torcedores, premiar ou não o melhor, estabelecer ou não a justiça, mas, sim, enraizar uma realidade que permita o avanço de um dos grandes pontos fracos do nosso futebol: o calendário.

Em suma, são 38 compromissos para todos os times, com metade em casa, o que facilita o planejamento dos participantes, permite a venda antecipada de ingressos e assegura um grau de igualdade mínimo entre todos. É óbvio que o panorama é muito mais complexo, com a necessidade urgente de uma adequação às datas Fifa, uma confederação nacional mais democrática, uma equação mais justa das verbas televisivas entre os clubes, uma minuciosa reestruturação fiscal e mais uma série de questões igualmente importantes, mas o fato de o principal evento futebolístico nacional ser realizado em pontos corridos é o mínimo que se pode exigir. Sem contar que, com Copa do Brasil, Libertadores e afins, a temporada não se resume a apenas um modelo.

O futebol brasileiro precisa de maiores médias de público, times que joguem com bola no chão, técnicos mais atualizados, mas também de um calendário bem estruturado. Criticar esse modo de disputa dizendo que falta emoção ou defendê-lo alegando que só com ele haverá justiça são atitudes legítimas, mas que sequer passam perto de abordar o ponto principal. No final das contas, trata-se de uma discussão entre aqueles que se veem prontos para atingir a maturidade e aqueles que preferem continuar no jardim de infância.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Pedro Vilela/Getty Images