O feitiço do tempo

2015 01jan 29 - O feitiço do tempo - Corinthians - Gustavo Carratte

O futuro incerto das conversas que pais e filhos corinthianos tiveram em dezembro de 2013 tornou-se presente em questão de um ano. As crianças questionavam se aquele homem que comandou o Corinthians em todas as conquistas vistas por elas voltaria um dia, e os adultos respondiam que “sim, filho, um dia ele irá voltar”. O grau de incerteza da projeção era enorme, mas a atitude era válida, já que assim seria possível encerrar o assunto com uma resposta que não abalasse as estruturas de quem ainda não havia vivido em um mundo sem Tite como técnico de sua equipe.

Daí em diante, as incógnitas estão por toda parte. Em uma avaliação desconectada da esfera emocional, a volta do maior técnico da história do Corinthians deve ser vista como uma precipitação. Que poderá se transformar tanto em um absurdo colossal quanto em algo imperceptível a olho nu, é claro, a depender dos resultados alcançados. Ainda assim, em ambos os casos, uma precipitação.

As primeiras dúvidas aparecem em um momento de inegável instabilidade política e administrativa, fruto de cochilos que invariavelmente aparecem após fases douradas. Existia a possibilidade de o corpo diretivo do clube campeão manter-se atento, reajustando diretrizes em todas as suas instâncias e antecipando-se às dificuldades tão previsíveis para um elenco envelhecido e satisfeito com o passado. Mas o Corinthians preferiu sentar em cima de suas glórias e dali só sair quando o ar começasse a faltar.

Financeiramente, o ano de 2015 será apertado. Há uma difícil equação em jogo, que só será resolvida com o exato equilíbrio entre a contenção de gastos, a fim de proporcionar mais segurança para investimentos em áreas vitais, e o acolhimento das ambições de uma instituição gigantesca, sedenta por retomar as trilhas menos sinuosas de 2012. Mas o grande perigo reside justamente neste raciocínio: saudosa de um período vencedor, a diretoria passa a adotar sistematicamente medidas que remetam à realidade anterior, esquecendo-se que, em maior ou menor medida, nem clube, nem plantel, nem torcida e nem adversários são iguais ao que eram três temporadas atrás.

O treinador também não é mais exatamente o mesmo, e essa é a parte que inspira confiança. Com um ano de total dedicação ao seu aprimoramento profissional, Tite tem tudo para demonstrar que, sem perder de vista a necessidade de resgatar a essência de seu esquadrão vitorioso, é capaz de acrescentar novas ideias a uma visão de futebol que já era ótima. A questão é que a oxigenação na mente de quem está à beira do gramado precisa ter a companhia da mesma oxigenação nas mentes dos homens que tomam as decisões estruturais, trabalhando e assinando papéis para tornar possíveis os anseios de quem não tem esse poder.

Diferentemente do que acontece no filme “O feitiço do tempo”, os protagonistas da administração corinthiana não estão vivendo o mesmo dia de maneira ininterrupta – o que requer um pouco mais de criatividade. E tudo isso às vésperas de um enorme desafio colombiano, cujas proporções em caso de insucesso têm potencial para abalar fortemente todo o restante da temporada.

Sob a pena de atravessar um momento decisivo de sua história recente, de estabilização pós-auge, dentro de uma roleta de tentativas impensadas, o Corinthians precisa calcular com extremo cuidado os passos a serem dados a partir de sua tão aguardada eleição presidencial, no próximo dia 7. E certificar-se de que o ritmo dali em diante será diferente do adotado entre a consagração mundial e a decisão pela recontratação de Tite. Com as mesmas atitudes, o quadro turbulento só será agravado.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians