Um passo de cada vez

2015 01jan 27 - Um passo de cada vez - Flamengo - Michel Costa

O futebol brasileiro sempre foi reconhecido por seu imediatismo. Cartolas, torcedores e jornalistas frequentemente miram o desempenho dos times em busca de resultados que muitas vezes só deveriam ser esperados ao final de um ciclo ou, em alguns casos, nem mesmo deveriam ser esperados. Talvez por isso tenha causado alguma surpresa quando Wallim Vasconcellos, ex-vice-presidente do Flamengo, disse que 2016 tem tudo para ser o ano rubro-negro. Uma previsão otimista que se baseia em projeções de que, no próximo ano, o clube arrecadará um montante maior do que sua dívida e que se soma à provável renegociação dos débitos com o governo federal, agora com a exigência de contrapartidas.

Contudo, ainda há 2015 e os desafios que esta temporada deve impor. “Um ano de sacrifícios”, segundo o presidente Eduardo Bandeira de Mello, mas, ao que tudo indica, um ano de estabilidade quando comparado ao que foi visto em 2014. A começar pela manutenção do comando técnico. Especulado pelo Internacional, Vanderlei Luxemburgo optou por permanecer na Gávea mesmo sem dispor de toda a autonomia que costuma pleitear em seus projetos. No Flamengo, focado no futebol e apenas apontando reforços, Luxa tem tudo para retomar o rumo que em algum momento de sua carreira foi perdido.

Embora a importância do treinador não deva ser maximizada, não há dúvida de que a manutenção de um trabalho de relativo sucesso traz mais pontos positivos do que negativos. A principal crítica sofrida pela atual diretoria era o comportamento similar às gestões passadas no que diz respeito à rotatividade dos técnicos. A demissão de Jayme de Almeida, campeão da Copa do Brasil 2013, possivelmente foi o episódio mais indigno de uma administração que tem o profissionalismo como um dos pilares em seu discurso. Neste cenário, manter Luxemburgo foi um acerto incontestável.

Dentro de campo, o elenco ainda carece de ajustes. Com a chegada de Marcelo Cirino, o plantel passa a contar com um cardápio ofensivo quase que exclusivamente composto por atletas de velocidade que atuam, preferencialmente, pelos flancos. Éverton, o melhor jogador da temporada passada, Gabriel, Paulinho e Nixon também são velozes e preferem carregar a bola em vez de trocar passes. No entanto, com a articulação no meio-campo entregue a um sobrecarregado Héctor Canteros, corre-se o risco de a equipe se tornar refém do contragolpe – um expediente ofensivo que, quando não acompanhado por outros, é totalmente indesejado para partidas em casa ou diante de adversários de menor porte.

Essa demanda tem feito a diretoria voltar seus olhos para o mercado de contratações. Dario Conca e Walter Montillo, além do corinthiano Jadson, tiveram os seus nomes ligados ao Flamengo durante as últimas semanas. Mas, em diferentes níveis, as três negociações foram complicadas, transformando em opção cada vez mais provável a utilização de alguém que já compõe o elenco – como Arthur Maia, que larga na frente.

Com muita personalidade, o recém-contratado junto ao América de Natal parece ter tomado a frente de Lucas Mugni na busca por uma vaga entre os onze iniciais. Ainda no campo das incógnitas, o garoto Jajá, um dos destaques do Flamengo na Copa São Paulo, desponta como um dos possíveis observados para a meia. No entanto, o zelo que vem dando a tônica da relação com a base sugere o aproveitamento gradual da jovem promessa.

Também desembarcaram na Gávea os laterais Pará, ex-Grêmio, e Thallyson, vindo do Asa de Arapiraca, que farão sombra aos titulares Leonardo Moura e Anderson Pico. Por sua vez, o zagueiro Matheus Bressan, também proveniente da Azenha, chega para ocupar o espaço deixado por Chicão e disputar posição com o prodígio Samir. Na meta, tudo indica que Felipe deve se transferir, com Paulo Victor assumindo definitivamente a titularidade e tendo César como seu reserva imediato.

Deste modo, o time titular para o início da temporada possivelmente será composto por Paulo Victor; Léo Moura, Wallace, Samir e Anderson Pico; Cáceres e Canteros; Gabriel, Eduardo da Silva e Éverton; Marcelo Cirino. Um 4-2-3-1 que se desdobra num 4-4-2, sem a figura de um meia-atacante clássico, com Eduardo se aproximando de Marcelo mais à frente.

Independentemente da chegada deste “10”, o que se espera para 2015 é um Flamengo que se destaque pela movimentação e velocidade de seu ataque. Um time que dificilmente brigará pelo título nacional, mas que também não lutará na parte de baixo da tabela – bem distante da “zona da confusão”, tão citada por Luxemburgo no último Brasileirão. Em outras palavras, um ano tranquilo. E embalado por uma silenciosa torcida para que 2016 chegue logo.

Michel Costa é fanático por futebol em nível não recomendável. No Twitter, @a4lMichelCosta

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo