De Dalí a Aguirre

2015 01jan 30 - De Dalí a Aguirre - Internacional - Marco Maciel

O fim de 2014 colorado seria digno de um registro surreal de Salvador Dalí. Após a goleada por 4 a 1 imposta pelo arquirrival na Arena do Grêmio, encerrando um tabu de nove clássicos sem derrota, até o mais otimista torcedor rubro se deixou tomar pelo ceticismo quando questionado sobre uma possível classificação direta para a Libertadores. Seria necessário algo próximo dos 100% de aproveitamento nos últimos cinco jogos restantes do Brasileirão.

O Internacional formatado por Abel Braga, mesmo amparado pelo tetracampeonato estadual e a permanência de ponta a ponta no G-4 do certame nacional, escancarava a sua ausência de padrão tático. O técnico insistiu o ano inteiro com o esquema 4-5-1, em que o centroavante permanecia isolado na frente aguardando as assistências de um meio-campo de transição lenta que, muitas vezes, deixava a zaga desprotegida.

Mesmo com a campanha regular no Brasileirão, Abel era muito contestado – principalmente pela forma apática como a equipe se portou ao ser desclassificada na Copa do Brasil e na Sul-Americana por adversários modestos como, respectivamente, Ceará e Bahia. O humilhante revés por 5 a 0 para a Chapecoense, na Arena Condá, foi outro reflexo da deficiência técnica do time. No entanto, a vaga direta para a mais importante competição do continente veio, muito mais em virtude das individualidades do que pelo ofensivismo irresponsável do técnico. E com uma pitada de surrealismo.

Uma semana depois da derrota para o Grêmio, Dalí despertou de seu descanso eterno para matar saudades do pincel, o seu maior companheiro. Pelo menos por uma fração de segundo. Só o saudoso pintor catalão poderia expressar com o sentimento adequado o gol antológico de bicicleta de Paulão diante do Goiás, tamanha a improbabilidade do lance. O truculento zagueiro já havia garantido um ponto precioso no Morumbi quatro dias antes, ao marcar no empate diante do vice-campeão São Paulo.

Os problemas técnicos foram compensados com gols ao apagar das luzes. Fabrício salvou o Inter aos 49 da etapa final de um empate contra os reservas do Atlético-MG no Beira-Rio. E, depois de uma convincente vitória diante do Palmeiras, veio a batalha do Orlando Scarpelli, onde o tento de Wellington Silva, que dispensou o Inter da necessidade de disputar a fase prévia da Libertadores contra um time colombiano, só saiu no último dos cinco minutos de acréscimo. Muito mais sorte do que juízo.

Abel Braga continuaria no cargo se Marcelo Medeiros, candidato do presidente Giovanni Luigi, fosse eleito para o biênio 2015-16. O mandato de Luigi ficou marcado muito mais pela entrega do novo Beira-Rio do que pelas conquistas, mais modestas em relação às gestões de Fernando Carvalho e Vitorio Píffero. Tanto que este último venceu a eleição com folga.

O novo presidente era contrário à permanência de Abel e estabeleceu Tite como prioridade para assumir a casamata. A ida do plano A para o Corinthians, porém, adicionada ao descontentamento de Abel por ser rebaixado a segundo plano, trouxe dias difíceis para o mandatário, mesmo antes de sua posse. Ciceroneado por Carvalho, Píffero chegou a acertar verbalmente com Vanderlei Luxemburgo, mas o técnico do Flamengo refletiu e achou melhor não deixar a Gávea, já que tem planos de presidir o clube rubro-negro um dia.

Caindo em contradição com o discurso eleitoral, quando afirmou que não contrataria técnico estrangeiro – uma referência à tumultuada experiência com Jorge Fossati em 2010 –, Píffero ficou sabendo do não acerto de Diego Aguirre com o Peñarol, e foi atrás do uruguaio em Montevidéu. Ex-jogador do próprio Abelão, em 1989, no Grenal do Século e na Libertadores perdida para o Olimpia, Aguirre teve também como bandeira um período de estágio no Inter no último mês de outubro. Pesou ainda o vice-campeonato continental do Peñarol em 2011, com direito à eliminação rubra nas oitavas de final em pleno Beira-Rio.

Para 2015, a base da equipe será mantida – e com reforços pontuais. Réver, o capitão do Galo que levantou a Libertadores de 2013, chega para ser o xerife da zaga. Da Toca da Raposa, desponta o bicampeão brasileiro Nilton para proteger a retaguarda. Da Inglaterra, o ex-gremista Anderson, quase uma década após ser o herói da Batalha dos Aflitos, está chegando para, ironicamente, vestir a camisa rival e pleitear a terceira vaga do meio de campo. O lateral-direito Léo, depois de sofrer com lesões no Flamengo, espera reeditar o futebol dos tempos de Atlético-PR. O mesmo vale para Vitinho, que planeja reviver seus melhores dias de Botafogo após não se adaptar ao frio da Rússia.

A tendência é que Diego Aguirre seja menos faceiro em relação a Abel Braga. Sua intenção era um esquema 4-2-3-1, com Nilton e Willians como volantes e Aránguiz com mais liberdade para se movimentar e avançar, expediente utilizado nos amistosos de pré-temporada contra Juventude e Shakhtar Donetsk. No entanto, Willians está de saída para o Cruzeiro e o chileno admitiu preferir atuar na segunda função, abrindo ainda mais espaço para Anderson. D’Alessandro deve seguir centralizado, apesar de render mais na faixa direita. E na disputa pela outra posição da meia-cancha estarão Alex, Vitinho, Valdívia e Eduardo Sasha, com mais vantagens para o último. Destes, Nilmar aguardará a aproximação e as assistências.

Mas o ano será de muito trabalho para Aguirre. De volta à Libertadores depois de três anos – curiosamente, os dois últimos treinadores que desclassificaram o Colorado da Libertadores foram os próprios Diego Aguirre (Peñarol, em 2011) e Abel Braga (Fluminense, em 2012) –, o torcedor colorado espera que o Inter recupere o padrão de jogo perdido. Para não depender de gols aos 50 minutos do segundo tempo. Nem de surrealismos emoldurados em forma de acrobacias de Paulão.

Marco Maciel é jornalista. No Twitter, @marcoandrews

Foto: Alexandre Lops/Internacional