“A popularidade de Medina irá durar enquanto a Globo acreditar nele”

Gabriel Medina Brasil - Kirstin Scholtz ASP

O jovem brasileiro ainda estava na água, sentado em sua prancha, quando o compatriota Filipe Toledo aproximou-se para lhe mostrar a festa que tomava conta das lotadas areias de Banzai Pipeline, no Havaí. Com as lágrimas teimando em escorrer pelo seu rosto, quem recebeu a mensagem não pôde esboçar reação muito mais significativa do que uma cerrada de punhos e dois rápidos socos no ar. Naquele instante, acontecia a definitiva inclusão de uma bandeira do Brasil em um universo amplamente dominado por norte-americanos e australianos. Gabriel Medina era o mais novo campeão mundial de surfe.

Pouco mais um mês após a conquista, o cenário já começa a se apresentar um pouco menos eufórico, permitindo, assim, uma análise mais ponderada a respeito de seus efeitos para o Brasil. Os otimistas acreditam em um crescimento significativo do esporte, ancorado em seu expoente máximo. Já para outros, que olham para oportunidades desperdiçadas no passado, a empolgação não vem tão facilmente assim.

“A popularidade de Medina irá durar enquanto a Globo acreditar nele”, diz Adrian Kojin, editor-chefe de The Surfer’s Journal Brasil, a versão tupiniquim da maior revista de surfe do mundo. “Quem conhece a indústria do surfe sabe que ela está passando por um dos seus momentos mais complicados. A esperança é que os líderes deste negócio saibam aproveitar essa visibilidade para tirá-lo do buraco”.

Para Kojin, por enquanto, o Brasil só tem um ídolo – o que é muito pouco para um país que queira se estabelecer como uma potência na modalidade. “Houve um momento em que tínhamos o maior número de etapas da segunda divisão mundial, o melhor circuito nacional, uma base amadora muito forte, e tudo isso foi desmantelado”, lamenta.

Nesta entrevista, o jornalista alerta para a distância que existe entre a base e a elite do surfe brasileiro, aponta para os exageros e as verdades nas comparações de Medina com Ayrton Senna e Gustavo Kuerten, reflete sobre o poder da mídia na construção de um herói e, por fim, avalia os desafios que terá pela frente o garoto que, aos 21 anos, já venceu mais etapas do Circuito Mundial do que a imensa maioria dos outros surfistas. Ser ídolo em um país que só admite campeões, afinal de contas, está longe de ser uma tarefa fácil.

Entrevista Adrian Kojin - 650-50

Conexão Fut – Pouco mais de um mês depois da consagração mundial de Gabriel Medina, já é possível dizer o que esse título significou para o Brasil?

Adrian Kojin – A parte esportiva é, sem dúvidas, espetacular. Em um momento em que os esportes mais vistos estão em baixa, sem grandes campeões, o surfe surge com esse talento especial, que trabalhou muito e chegou lá com todos os méritos. Para uma nação tão carente de ídolos, é a indicação de um caminho mais saudável para milhões de jovens, que veem a melhor opção no esporte. Mesmo que não seja possível seguir nele profissionalmente, o importante é o que se aprende neste processo. Por outro lado, o Brasil não irá mudar com essa conquista. Seria melhor que os nossos principais ídolos não viessem apenas do campo esportivo. Com a referência de grandes cientistas, por exemplo, talvez o impacto social para o país como um todo fosse maior.

E, mais especificamente, o que pode representar para o surfe brasileiro?

Ainda é algo muito recente, mas a história do surfe brasileiro ganhou uma contribuição muito positiva. O que não se sabe é se o surfe irá explodir, pois quem conhece a indústria sabe que ela está passando por um dos seus momentos mais difíceis. Há desemprego, achatamento de salários, lojas e marcas com enormes dificuldades e, sozinho, Medina não terá força para resolver isso. A esperança é que os líderes deste negócio saibam aproveitar essa visibilidade para tirá-lo do buraco.

 

“Quem conhece a indústria do surfe sabe que ela está passando por um dos seus momentos mais difíceis. E, sozinho, Medina não terá força para resolver isso”

 

Por que Medina não terá força para impulsionar a modalidade?

Porque é a indústria quem tem de saber utilizá-lo para isso. Hoje, ele serve muito mais a grandes marcas, que são as suas patrocinadoras, do que exatamente ao surfe. Ele já está em outro patamar, quase escapando do esporte em si. É ótimo que o Brasil tenha um campeão mundial, algo inédito na nossa história, mas por enquanto só temos um ídolo. É preciso que governos, empresas e sociedade em geral criem as condições para que aqueles que queiram seguir o mesmo caminho também tenham chances de sucesso. A distância que existe entre a base do surfe brasileiro e a sua elite ainda é muito grande.

O fato de Medina não estar sozinho nesta jornada (Adriano de Souza, Filipe Toledo, Alejo Muniz, Miguel Pupo, Raoni Monteiro e Jadson André, a chamada “Brazilian Storm”, também estavam no Circuito Mundial em 2014) não é um motivo a mais para acreditar no desenvolvimento do surfe?

Medina não é o único, mas todos os nomes desta excelente geração ainda são o topo da pirâmide, e não a sua base. Eles servem como referências, compõem a melhor geração de surfistas que o Brasil já teve, mas a nossa base está em crise. Houve um momento em que tínhamos o maior número de etapas da segunda divisão mundial, o melhor circuito nacional, uma base amadora muito forte, e tudo isso foi desmantelado. O caso do tênis, em que não aproveitamos o destaque de Guga, serve como um bom exemplo. Pode ser que a indústria do surfe consiga capitalizar em cima deste título, e assim as coisas voltem a caminhar, mas a situação atual não é boa.

Qual é a responsabilidade de Medina neste cenário de estruturação do surfe no país? É necessário que ele seja um dos engajados na luta por mais investimentos?

A obrigação dele, para mim, é zero. É lógico que manifestações a favor disso podem ajudar, mas ele ainda é muito novo e precisa ter o seu foco voltado para os campeonatos. A responsabilidade está nas mãos de quem lidera as partes organizacional e institucional do esporte. E digo não apenas entidades esportivas ou empresas, mas os governos federal, estaduais e municipais também, pois o surfe serve, inclusive, como um elemento para potencializar o turismo.

 

“Do jeito que o Brasil é dominado por algumas poucas mídias, a popularidade de Medina irá durar enquanto a Globo acreditar nele. Se a Seleção Brasileira tivesse ganho a Copa do Mundo, ele estaria em segundo plano”

 

Como deve ser encarada a exaustiva exposição que Medina e o surfe tiveram na grande mídia nos últimos meses? A cobertura maçante foi benéfica, por elevar o grau de interesse popular no esporte, ou tem o seu lado negativo, por ter sido apoiada em euforia e desconhecimento?

A cobertura técnica foi feita com competência, com a maior de todas elas sendo a da Rede Globo. E a abordagem dada ao surfe tem sido muito boa, destacando que é um esporte que, além do talento, precisa de treinamento e dedicação. A questão é que, como se sabe, a Globo não toma uma atitude sem ter interesses por trás – o que faz parte da própria necessidade da engrenagem capitalista, de produzir um campeão que gere produtos, mova a indústria e crie novos negócios. Ela percebeu uma geração de absurdo potencial, identificou o seu expoente, e o transformou em um catalisador de audiência.

E, a longo prazo, isso é bom?

Não. E pode atrapalhar não só o Medina, mas qualquer esportista que se destaque em escala mundial. Ele assume compromissos com os patrocinadores, e os patrocinadores se acertam com a emissora. A quantidade de dinheiro que o Guaraná Antarctica está investindo para aparecer nos comerciais da Globo, por exemplo, garante que o Jornal Nacional tenha dado a grandiosa notícia de que “Medina voltou aos treinos”. Quer dizer, isso é importante? O staff de Medina precisa calcular se deve atender a tudo o que os patrocinadores querem, e lucrar ao máximo em um ano, ou se o melhor é garantir um segundo, um terceiro título mundial, para que eles continuem faturando por anos e anos tudo isso que estão ganhando agora.

Por mais que Medina seja um garoto humilde e tenha uma família comprometida em protegê-lo das mais diversas formas, tornar-se um ídolo instantâneo em um país que venera vencedores, e não esportistas, não é um desafio cruel demais?

Medina já tem o seu lugar assegurado para sempre na história do surfe, mas a maneira como isso continuará a repercutir depende de suas performances e de alguns fatores que fogem de seu controle. Se o Brasil voltar a ter um representante que comece a enfileirar títulos na Fórmula 1, por exemplo, Medina volta para o segundo plano. Se a Seleção Brasileira tivesse sido campeã do mundo, a mesma coisa. Teríamos sido “os campeões da melhor Copa de todos os tempos”, com tudo isso sendo explorado até o seu limite. Como a gente levou uma sapecada de 7 a 1, abre-se um espaço. Em resumo, do jeito que o Brasil é dominado por algumas poucas mídias, a popularidade de Medina irá durar enquanto a Globo acreditar nele. Na hora em que mudar o foco, essa popularidade começa a diminuir.

 

“Medina tem todo o potencial necessário para chegar ao mesmo patamar de Ayrton Senna, Gustavo Kuerten e outros grandes ídolos nacionais”

 

Nas últimas semanas, ele foi muito relacionado a nomes recentes do esporte nacional, como Anderson Silva e Arthur Zanetti, ou até mesmo a ídolos históricos, como Ayrton Senna e Gustavo Kuerten. Nestas comparações, o que há de exagero e o que realmente faz sentido?

Como esportista, Medina está bem próximo. Só ganhou o seu primeiro título, é claro. A resposta definitiva para essa questão virá com o tempo. Mas ele tem todo o potencial necessário para chegar ao mesmo patamar destes nomes. Trata-se de um talento fora do comum, com uma dedicação e um nível de concentração que nunca tinham sido vistos antes no surfe brasileiro. Ele tem inteligência e intuição para entender o xadrez do jogo, administrando muito bem o seu momento de pico, de explosão de energia. Mais do que tudo, é um grande competidor.

Para fechar, o que você pensa a respeito da visão do australiano Nick Carroll, um dos mais conceituados jornalistas de surfe do mundo, que disse que Medina é apenas o começo? Você também acredita que o “Kelly Slater brasileiro” ainda está por vir?

Eu discordo bastante, pois é uma visão de quem desconhece o Brasil e tem como base o que aconteceu na Austrália há décadas. Não estou dizendo que Medina é o “Kelly Slater brasileiro”, pois estamos falando de alguém incomparável, campeão mundial por onze vezes. Mas o surgimento de um talento como esse não é algo tão simples quanto o Nick Carroll diz. E acho também que as pessoas talvez não tenham entendido as entrelinhas da declaração dele, que, de certa maneira, foi um menosprezo – como se Medina fosse um cara normal que, sem querer, conquistou um título mundial. Ele pode até estar dando início a um novo ciclo no surfe brasileiro, mas o seu título já deu fim ao primeiro. As coisas não estão começando agora.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Kirstin Scholtz/ASP