A gula do Galo

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Sair às ruas de Belo Horizonte e perguntar ao atleticano o que esperar de seu time neste ano é sinônimo de ouvir um prognóstico otimista. E isso não se deve apenas ao olhar naturalmente positivo que torcedores costumam ter em início de temporada. Sabe-se que no futebol tudo pode dar errado, por mais que o caminho correto seja traçado, mas realmente há razões para que se imagine um futuro próximo de festejos para o Atlético Mineiro.

Os acertos começaram no fim da gestão de Alexandre Kalil e continuam com Daniel Nepomuceno, o sucessor por ele indicado. A escolha de Levir Culpi para substituir Paulo Autuori foi mais por falta de opção do que por convicção, mas o resultado não poderia ter sido mais satisfatório. Em alguns momentos, o clube voltou a apresentar o melhor futebol do Brasil, relembrando as atuações da fase de grupos da Libertadores de 2013. Com a conquista da Copa do Brasil a premiar as boas atuações, o novo presidente fez a óbvia escolha de manter o técnico. Ninguém teria feito diferente.

Nepomuceno chega para manter a política administrativa de Kalil: pagar as dívidas (já negociadas e parceladas) e investir o que restar exclusivamente no futebol, seja nas categorias de base ou na melhoria do elenco profissional. Não está prevista injeção de receita em outros projetos, mesmo que o estatuto do clube exija que pelo menos outras duas modalidades esportivas sejam mantidas. O que diferencia os perfis de Kalil e Nepomuceno é o modo de se expressar – o primeiro é mais caricato, e o segundo, que já foi vereador de BH, sabe medir as palavras.

Além de Levir, o dirigente manteve também a base do elenco que se conhece bem. Perdeu Diego Tardelli, motor de um time que precisava de alguém como ele para ser o que era. Mas ganhou Lucas Pratto, centroavante de menos movimentação. “É um jogador de base, que protege bem a bola. Não possui a dinâmica dos outros atacantes, mas tem um bom aproveitamento ofensivo”, definiu o treinador. Em termos táticos, será o que foi Jô na Libertadores – com o ônus de não ter um meio de campo com Ronaldinho, Tardelli e Bernard, mas com o bônus de finalizar melhor.

A mudança fez com que a equipe perdesse qualidade na armação de jogadas, e Levir Culpi ainda não definiu quem será o substituto de Tardelli, mas as dúvidas só existem em relação ao nome. Independentemente do escolhido, o esquema com dois meia-atacantes de velocidade pelos flancos seguirá intacto. Nos primeiros jogos, o parceiro de Luan foi Carlos. Diante do Democrata, entrou Maicosuel – que é menos marcador que Carlos, mas sabe lidar melhor com a bola nos pés.

Ainda em relação às mudanças no time, a dupla de volantes se firmou com Rafael Carioca ao lado de Leandro Donizete. O jogador tem uma saída de bola qualificada, algo que faltava às antigas duplas (fossem elas Pierre e Donizete, Pierre e Josué ou Josué e Donizete). Donizete tem mais a missão de proteger a defesa, mas Carioca é quem joga mais recuado, para receber a bola da defesa e fazê-la chegar redonda à frente – o que é fundamental para o Galo que, com o iminente adeus de Guilherme, verá Dátolo se tornar o único responsável por uma função em que ainda não se sente bem por completo.

À exceção de Diego Tardelli, no entanto, que recebeu a indecente proposta chinesa, o Atlético manteve quase tudo o que fez de correto em 2014. Até mesmo para o lugar do excelente preparador físico Carlinhos Neves, que colaborou para que o time marcasse 25 dos seus 61 gols no último Brasileirão durante os 30 minutos finais das partidas, chegou Rodolfo Mehl, que já trabalhou com Levir.

Não se trata de dizer que o Galo disputa as quatro competições do ano – Campeonato Mineiro, Copa do Brasil, Brasileirão e Libertadores – como o time a ser batido, mas quer dizer, sim, que será uma das equipes mais respeitadas por seus adversários. E especialmente quando o embate for no Horto, local em que, 89 jogos após a sua reinauguração, em 2012, só saiu derrotado em quatro oportunidades. Por todas as decisões corretas tomadas, é mais do que natural e sensato o Atlético querer tudo em 2015.

Matheus de Oliveira é jornalista. No Twitter, @Math_deoliveira

Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro