Uma estrela solitária

2015 02fev 07 - Uma estrela solitária - Botafogo - Rafael Miguel

A última temporada parecia especial para o torcedor botafoguense – afinal de contas, o clube voltaria à Libertadores depois de 18 anos sem disputá-la. Seria o passo adiante para um time que, apesar de sua dificuldade para se estabelecer entre os primeiros colocados, nos últimos anos acostumou-se a figurar na metade de cima do Brasileirão. O Botafogo, no entanto, conseguiu misturar todos os ingredientes necessários para transformar 2014 em um dos piores anos de sua história.

A despeito das expectativas otimistas, o planejamento da diretoria ficou muito aquém do esperado, tanto dentro quanto fora de campo. Em momentos dramaticamente frequentes, parecia até que os atletas alvinegros tinham de vencer seus oponentes e, além deles, os seus próprios dirigentes. Se os resultados não foram obtidos no gramado, muito se deve aos problemas internos, encabeçados pelos infindáveis atrasos salariais.

O torcedor, que projetava uma grande oportunidade para um clube renascido, encerrou a sua terrível aventura com mais um melancólico rebaixamento para a Série B. Com eliminações humilhantes, discussões entre atletas, atritos entre diretores e protestos, a equipe de General Severiano nunca teve tantos problemas em um espaço de tempo tão curto.

Por isso, o clube está totalmente mudado para 2015 – a começar pela presidência, com a saída de Mauricio Assumpção e a entrada de Carlos Eduardo Pereira. Para gerente de futebol, Antônio Lopes substitui Wilson Gottardo, que, em seu semestre como profissional do clube, não pôde fazer nada muito diferente do que apagar incêndios. E o treinador é René Simões.

Para um time que almeja renovação, dois veteranos ocupando cargos importantes, e de históricos recentes bastante tímidos, não é algo dos mais animadores. Todavia, ao menos Lopes terá mais autonomia do que o seu antecessor para gerir o departamento de futebol, já apresentando-se como uma figura importante no processo de renovação do elenco.

René, por sua vez, com um currículo que não impressiona, terá a árdua tarefa de dar uma cara à equipe. Uma opção justificada por um salário que pode ser considerado entre mediano e baixo, e por se tratar de alguém que sempre valorizou o lado psicológico de seus atletas. O problema é que, com recursos tão escassos, não será fácil a tarefa de evitar que o Botafogo se transforme no primeiro grande brasileiro a cair para a segunda divisão e, no ano seguinte, não retornar.

Nas primeiras partidas, os comandados por René apresentaram algumas boas ideias, com compactação entre os setores, os indícios de que a equipe conta, sim, com algumas apostas interessantes – apesar de serem raríssimos os jogadores com uma carreira consolidada – e um bom apoio dos laterais Gilberto e Carleto. Por enquanto, porém, as mais de 30 idas e vindas de atletas fazem com que o entrosamento não passe de um sonho distante. E, mesmo quando ele chegar, a (falta de) qualidade individual tende a ser um obstáculo para o bom funcionamento das ideias do novo treinador.

Como a maioria de seus novos jogadores veio de equipes que em 2014 disputaram a Série B, o Botafogo também corre o sério risco de ter o seu desempenho condicionado à capacidade de adaptação destes atletas a um contexto de clube grande ainda desconhecido por eles. Rodrigo Pimpão, de ótimo desempenho no América de Natal, é o nome mais badalado das contratações – o que, por si só, já exemplifica como o futuro inspira cuidados.

A situação só é amenizada quando se olha para a meta alvinegra. Depois de ter uma de suas luvas fora do clube, Jefferson entrou em negociações com a diretoria e resolveu permanecer. Assim, continuará sendo o grande líder do plantel. Ou uma espécie de estrela solitária dentro do clube da estrela solitária. Que precisa urgentemente voltar a brilhar.

Rafael Miguel é jornalista. No Twitter, @rafaelmigguel

Foto: Vitor Silva/SSPress