Imposição majestosa

Corinthians São Paulo - Rahel Patrasso

1 – No primeiro Majestoso da história da Libertadores, o Corinthians precisou de apenas 65 segundos para chegar à meta do São Paulo. Até a finalização de Fábio Santos, que ganhou as alturas, foram cinco tentativas diferentes para construir um ataque: um lançamento à meia altura, uma triangulação pela direita, outra pela esquerda, um cruzamento do lado canhoto e mais um do lado destro. O nome disso é repertório.

2 – Um corta-luz de Elias para Danilo, uma tabela curta e rápida que solicita o lançamento cirúrgico de Jadson e, sem deixar a bola tocar ao chão, um arremate perfeito do jogador que tem sido a tônica do Corinthians neste início de 2015. A quantidade de golaços coletivos dos comandados por Tite beira a falta de educação. No futebol brasileiro, a esta altura da temporada, não há time mais encorpado.

3 – O esquema tático tricolor não colaborou em nada para a existência de uma posse de bola produtiva. Com Maicon mais próximo de Denílson e Souza do que de Ganso, a profundidade que uma dupla de ataque formada por Luis Fabiano e Alan Kardec sugeria não passou de uma miragem. Sem contar que o posicionamento de Michel Bastos como lateral-esquerdo não apenas fez o São Paulo perder o seu meia mais veloz e perigoso, como também inviabilizou a contrapartida de um defensor mais eficiente para dificultar as tramas corinthianas.

4 – O avanço do cronômetro comprovou um outro equívoco tático de Muricy Ramalho, que espaçou a sua equipe e, assim, deu ao Corinthians todas as condições que ele precisava para explorar as beiradas do gramado. Jadson, Elias e Fagner contra Michel Bastos (e às vezes Souza) por um lado; Emerson Sheik, Renato Augusto e Fábio Santos contra Bruno (e às vezes Maicon) pelo outro. Não dá para dizer que o primeiro tempo foi alvinegro do início ao fim, pois o recuo após o tento inaugural foi evidente e desnecessário, mas identificar algum instante de domínio são-paulino é loucura.

5 – A decisão que deveria ter sido tomada no intervalo, com o adiantamento de Michel Bastos, precisou de mais nove minutos para acontecer. E, ainda assim, com o raciocínio errado. O escolhido para dar lugar ao lateral Reinaldo não deveria ter sido Alan Kardec, acostumado a sacrifícios táticos para facilitar a acomodação de Luis Fabiano entre os titulares. Denílson e Souza, embora excelentes, passariam a ser menos úteis a partir dali.

6 – Uma substituição mais ousada poderia ter sido a senha para um raio de atuação mais amplo dos visitantes. Michel Bastos ocuparia o flanco esquerdo, Alan Kardec faria a mesma tarefa pelo direito, e Ganso poderia recuar para armar o jogo de peito aberto para o ataque. Algo próximo disso só aconteceu vários minutos depois, com a entrada de Thiago Mendes – e, de novo, no lugar do homem errado, já que o vigor físico e a precisão no passe de Maicon pareciam ser as ferramentas ideais para as circunstâncias do momento.

7 – O erro da arbitragem na origem do segundo gol dos donos da casa é uma bela desculpa para o soterramento das chances de reação do São Paulo no último quarto do confronto, mas não está nem perto de ser a justificativa para o resultado adverso. Antes de Emerson empurrar Bruno e disparar em direção ao campo tricolor, foram 70 minutos de imposição tática, técnica, física e psicológica do Corinthians. Não há margem para reclamações.

8 – A corrida de Tite em direção aos seus atletas, durante a comemoração do lindo gol de Jadson, é daquelas imagens que dizem muito mais do que os olhares menos atentos são capazes de enxergar. É mais do que o futebol em seu estado puro, com o sentimento libertador que o balançar das redes traz aos que vivem a partida, direta ou indiretamente. É um agradecimento. Uma demonstração de carinho de um comandante que vê os seus jogadores executarem com perfeição o que tem sido exaustivamente treinado. A semelhança de movimentos em muitos dos primeiros gols alvinegros no ano não é uma mera coincidência.

9 – Elias deixou o gramado da Arena Corinthians como o melhor da partida, embora o gol e a assistência de Jadson tenham levado o prêmio oficial para as mãos do camisa 10. Mais adiantado, e com uma pré-temporada bem feita, o meio-campista se aproxima surpreendentemente daquilo que foi em 2009, sob o comando de Mano Menezes. A notícia é positiva especialmente para os mais de 30 milhões de corinthianos, mas, se Dunga estiver atento, também pode ser para os outros 170 milhões de brasileiros.

e 10 – O clássico, embora histórico, não era exatamente decisivo. Ainda há muita água para passar no moinho do grupo que, com San Lorenzo, da Argentina, e Danúbio, do Uruguai, apresenta-se como o mais complicado da Libertadores. Mas o contraste entre os comportamentos do mandante e do visitante aumenta a importância do que aconteceu durante os 90 minutos. Um dos times, pela quarta vez em quatro compromissos relevantes na temporada, jogou. O outro, pela segunda vez em dois compromissos relevantes na temporada, decepcionou.

Corinthians 2-0 São Paulo (18 fev 2015, Arena Corinthians) – 1ª rodada da fase de grupos, Libertadores – Gols: Elias e Jadson

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Rahel Patrasso