Viver ou sobreviver?

Marcelo Oliveira Técnico Cruzeiro - Washington Alves Vipcomm

O calendário de 2012 ainda estava em agosto quando o Cruzeiro resolveu dar uma grande lição ao futebol brasileiro. Encabeçada pelo diretor Alexandre Mattos, a ideia era dar início ao planejamento das temporadas seguintes, uma vez que o desempenho da equipe no Brasileirão nem permitia aspirações maiores do que o meio da tabela nem preocupava em relação a rebaixamento, uma ameaça real no ano anterior. Assim, o procedimento consistia em compreender o estágio em que o time se encontrava, identificar as próprias limitações e virtudes, definir um projeto de longo prazo e buscar os nomes ideais para executá-lo com consistência.

As duas últimas temporadas nada mais são do que uma amostra incontestável de que o receituário foi seguido à risca. Com atuações recheadas de qualidade técnica, compactação tática e intensidade física, a Raposa encantou o Brasil. Em 2014, ano em que o fracasso da Seleção na Copa do Mundo teve forças para fazer até mesmo as vozes menos ativas do futebol nacional se juntarem ao coro dos que há muito tempo chamam a atenção para as deficiências de uma estrutura viciada, os comandados por Marcelo Oliveira pareciam ser os únicos de um país sedento por mudanças que já estavam na terra prometida.

Ao mesmo tempo em que o sucesso trouxe credenciais para o Cruzeiro se postular como favorito a tudo o que disputar, no entanto, surgiram também novas responsabilidades. Pelas bandas da Toca da Raposa, Libertadores passou a ser uma palavra de ordem. Era preciso fazer a supremacia celeste transbordar o perímetro brasileiro e alcançar uma dimensão continental. Mas as decisões administrativas do início de 2015 não colaboraram para reforçar a atmosfera esperançosa que tomou conta do clube ao final de 2014.

As explicações são óbvias: Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Lucas Silva, peças fundamentais do 4-2-3-1 de Marcelo Oliveira, não fazem mais parte do elenco. Dos quatro pilares técnicos de uma equipe caracterizada pela obsessão de estar presente no campo de ataque, só sobrou o goleiro Fábio – capitão e ídolo, portanto fundamental, mas sem interferência alguma no jogo coletivo com a bola nos pés. E nem mesmo as chegadas de bons reforços, como Paulo André, Mena, Seymour, De Arrascaeta, Riascos e Leandro Damião, são o bastante para amenizar esse cenário.

As contratações feitas para a temporada precisam ser encaradas como os primeiros passos da montagem de um outro time, e não como peças de reposição para aquelas que se foram. Trata-se de uma mudança profunda, com sequelas para o estilo de jogo cruzeirense, e assumir a própria fragilidade em comparação aos anos recentes é um passo necessário para que a sua versão de 2015 não tenha de conviver com cobranças e críticas desproporcionais, sejam elas da imprensa ou da torcida.

Em uma esfera mais sensível, talvez seja uma bifurcação que dá aos atuais bicampeões brasileiros a chance de escolher entre simplesmente sobreviver, sustentando uma expectativa irreal para o momento e sofrendo todas as consequências provenientes desta postura, ou viver, reconhecendo-se em seu novo figurino, diminuindo o grau de expectativas de quem está ao redor e, a partir daí, voltando a trabalhar com alguma tranquilidade. Por retardar objetivos e frustrar corações ansiosos, a segunda opção não parece ser a mais fácil. Mas é a mais correta.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Washington Alves/Vipcomm