Dignidade vendida para a China

Felipão Barcos Marcelo Moreno Grêmio - Halder Ramos

O dia era 9 de novembro de 2014. Um Grêmio a princípio desacreditado consolidava seu amadurecimento ao pulverizar o incômodo tabu de nove clássicos sem triunfos diante do maior rival. A primeira vitória tricolor em Grenais na Arena não poderia ser mais consagradora: um 4 a 1 soberano e incontestável, a maior goleada sobre o Inter em 24 anos.

O combalido Luiz Felipe Scolari, resgatado pelo time do coração após clamar por carinho diante do achincalhamento moral pós-7 a 1, havia chegado muito próximo do padrão ideal para a equipe. Marcelo Grohe consolidou-se como um dos melhores goleiros em atividade no país, Rhodolfo e Geromel se entrosaram rapidamente e formaram uma zaga sólida, o quarentão Zé Roberto concedeu sucessivas aulas de futebol em seu regresso à lateral esquerda, Walace, Fellipe Bastos e Ramiro constituíam um competente trio de volantes e Barcos e Dudu, uma eficiente dupla de ataque.

Para a torcida, as duas únicas ressalvas eram a lateral direita, onde o voluntarioso Pará não convencia mesmo com sua entrega por muitas vezes se sobressaindo às limitações, e a última função do meio de campo, já que nomes como Giuliano, Alan Ruiz e Luan não foram bem-sucedidos na missão de assumir a camisa 10.

No entanto, os maus resultados nas últimas rodadas do Brasileirão, que afastaram o clube da Libertadores, tiveram consequências trágicas para o futuro. Afundado em dívidas em virtude dos gastos da última gestão de Paulo Odone, marcada pela inauguração da Arena e pelos altos salários e longos contratos aos atletas, o Grêmio virou 2015 promovendo um verdadeiro desmanche em seu plantel, com mais de um time inteiro deixando Porto Alegre.

No meio da dezena de baixas, foi no mínimo curiosa a forma como Barcos e Marcelo Moreno (devolvido pelo Cruzeiro) saíram: com ambos marcando dois gols cada pelo Gauchão em suas respectivas despedidas, para no dia seguinte carimbarem os passaportes para o futebol chinês. Enquanto isso, Kléber Gladiador segue como um encosto, sem ter como rescindir seu contrato em virtude das altas cifras – e com Felipão não querendo vê-lo nem pintado de branco e dourado, tampouco de azul e preto.

Os poucos reforços foram modestos, como o lateral-direito Galhardo, rebaixado com o Bahia; Marcelo Oliveira, trazido do Palmeiras para ocupar a lateral esquerda; o equatoriano Erazo que, apesar da boa Copa, não deixou saudades no Flamengo; Douglas, de volta ao Tricolor depois de três anos, a pedido de Felipão; e o uruguaio Braian Rodríguez, centroavante que, em 2013, pelo chileno Huachipato, motivou o primeiro revés gremista no novo estádio.

A crise financeira fez com que jogadores como o lateral argentino Matias Rodríguez e o atacante Yuri Mamute, por exemplo, que seriam considerados dispensáveis em outros tempos, se tornassem soluções. Da base, rapidamente foram integrados ao grupo os laterais-esquerdos Júnior e Marcelo Hermes, o volante Araújo, o atacante Pedro Rocha e a grande promessa Lincoln – meia de apenas 16 anos, mas maduro para a pouca idade. De certa maneira, é uma espécie de revival de duas décadas atrás, quando Felipão promoveu vários pratas-da-casa que viriam a ser essenciais durante a campanha vitoriosa da Libertadores de 1995, como Danrlei, Roger e Émerson.

O time gremista para o primeiro semestre, que disputa apenas o Gauchão e as fases iniciais da Copa do Brasil, é um dos mais modestos da instituição desde 1903. Após oito rodadas do certame regional, a equipe sequer figura na primeira página da classificação geral, amargando a vexatória nona posição. As três vitórias conquistadas até aqui foram contra União Frederiquense, Avenida e Passo Fundo, adversários que lutam contra o rebaixamento.

Duas manchas históricas foram gravadas no retrospecto quase centenário do clube no Campeonato Gaúcho. Desde o início dos anos 60, o Grêmio não perdia duas partidas seguidas em casa pelo regional. Aconteceu nos reveses para Brasil de Pelotas e Veranópolis, ambas pelo placar mínimo. No confronto seguinte na Arena, diante do Juventude, um empate sem gols – e o Tricolor jamais tinha passado três partidas seguidas em branco no seu estádio.

Antes mesmo do apito final no confronto com o Veranópolis, Felipão não foi visto na casamata. Desolado com mais um desempenho inoperante de seus comandados, “expulsou-se do jogo”, segundo suas próprias palavras, com um profundo sentimento de vergonha. O abandono ao próprio time teve repercussão internacional, adicionando o caso à lista de constrangimentos do técnico, pouco mais de seis meses depois dos gols da Alemanha.

Com a limitação do elenco, naturalmente a formação ideal ainda não foi encontrada. A qualidade da equipe que goleou o Inter há menos de quatro meses despencou em relação à que festejou o empate sem gols com os suplentes colorados no último domingo. Há uma diferença abissal entre o time competitivo do fim de 2014 para o que inicia o ano – desmantelado, repleto de improvisações e carências em todos os setores.

Mais nomes desembarcarão no Salgado Filho em breve, e evidentemente não será este o plantel que irá disputar o Campeonato Brasileiro, mas não é exagero afirmar que o time atual é um dos piores entre os 20 da Série A. Há quem diga que o Grêmio esteja, com a vistosa e custosa Arena, pagando o preço da venda de sua alma para o diabo, travestido de construtora baiana. As previsões são das mais pessimistas.

Marco Maciel é jornalista. No Twitter, @marcoandrews

Foto: Halder Ramos