Ditadores e o futebol: a propaganda perfeita

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Futebol e política andaram de braços dados em muitos momentos da história mundial. Em épocas de ditadura, então, uma relação essencial para demonstrar até onde vai o poder dos líderes nacionais extremistas: até onde eles querem. Valia tudo para manter a ordem e o progresso nacional intactos. É sobre essa relação promíscua que trata o livro “Glória Roubada: o outro lado das Copas”, do jornalista argentino Edgardo Martolio, lançado em 2014 pela Editora Figurati.

O Brasil não escapou desta artimanha – pelo contrário, é um dos principais exemplos. Ganhamos o tricampeonato em 1970, em meio à ditadura militar. Aquele governo torturador que uma lamentável parcela das 210 mil pessoas – ou um milhão, dependendo do ponto de vista – que recentemente tomaram a principal avenida do país pediram para voltar. Pelé, Carlos Alberto Torres, Jairzinho e outros 19 heróis nacionais foram usados para a continuidade da perseguição política. A população aceitou. E comemorou.

Mas um personagem se recusou a fazer parte do circo. Justamente o treinador, João Saldanha, demitido pouco antes da Copa do Mundo do México, sendo substituído pelo imortal Zagallo, nome fiel da CBF – ou da CBD – quando fora preciso. Com um time montado, pronto para o Mundial, Saldanha foi pressionado pela ditadura a convocar o Dario, mais conhecido como Dadá Maravilha, então destaque no Atlético-MG, para fazer média com a população mineira. Dadá foi campeão sem entrar em campo sequer uma ve, mas Médici conseguiu o que quis. Azar dos brasileiros, que tiveram que esperar mais 14 anos para ter plena liberdade novamente.

“Houve uma série de modificações na cúpula (do Governo). E entrou o Médici – que, como precisava de uma frente bem ampla, resolveu usar a seleção, como vários governos usam até hoje. O usurpador do poder naquele momento era o senhor Médici, que desejava popularidade e quis fazer popularidade através da seleção. Não era um bom caminho. Eu não estava de acordo. Nós éramos um time de futebol”, relatou o falecido técnico, comprovando a teoria, em entrevista para Geneton Moraes Neto.

As Feras de Saldanha, como ficou famoso o time que se preparava para ser campeão no México, ficaram órfãs do líder por merecimento. Não fez diferença. Com tanto talento, o time encantou o mundo e até hoje está ao lado da Holanda de 1974 e do Brasil de 1982, ambos sem títulos mundiais, no hall de melhores de todos os tempos.

E as histórias envolvendo Copas do Mundo e ditaduras vêm de ainda mais longe. A Itália de Mussolini, por exemplo, ganhou dois Mundiais. Sob as duras mãos do criador do fascismo, a Azzurra tinha uma missão clara: vencer a primeira competição entre seleções de futebol realizada na Europa, em 1934. Para garantir a determinação dos jogadores, ele deixava um bilhete antes de cada jogo no vestiário. O recado era “vitória ou morte”. Mais direto, impossível.

Na Copa seguinte, realizada em 1938 em território francês, novo domínio sobre um time melhor – se antes fora a Tchecoslováquia, a vez era da Hungria, que ano mais tarde teria Puskas, atacante que encantou o mundo e defendeu o Real Madrid e a Espanha. O goleiro rival da Itália não escondeu o medo. Para ele, foi melhor ter perdido aquele jogo. “Ao aceitar a derrota, salvei a vida de onze homens”, declarou, posteriormente.

Em meio aos casos vencedores dos “loucos e ditadores”, como se refere o ator, outros lunáticos comandantes de países também interferiram em suas seleções sem levar a taça. Hitler é um deles. Ao invadir a Áustria, em 1938, dando início à Segunda Guerra Mundial, o Führer tinha, entre outros motivos, a recusa do atacante Matthias Sindelar em defender a seleção alemã. Afinal, não é difícil para um ditador invadir um país e, caso contrariado, dar início a uma batalha de sete anos.

Pichonet e o jogo entre Chile e União Soviética, no Estádio Nacional de Santiago, que nunca existiu; as torturas sofridas pelo zagueiro haitiano Ernst Jean-Joseph durante dois anos, por ser pego no antidoping depois de tomar uma pílula contra a asma; e a história de Eduard Streltsov, que ficou preso por cinco anos por não defender o clube do governo soviético, são alguns dos outros capítulos descritos em meio a tantas glórias roubadas.

Resenha do livro “Glória roubada: o outro lado das Copas”, de Edgardo Martolio (Editora Figurati, 2014, 168 páginas)

Arthur Stabile é jornalista. No Twitter, @ArthurStabile