Além das aparências

Dunga Treino Seleção Brasileira - Rafael Ribeiro CBF

Passados pouco mais de oito meses da volta de Dunga à Seleção Brasileira, já são sensíveis os efeitos positivos gerados pela reformulação branda que o novo-velho técnico resolveu promover, deixando de lado o espírito apocalíptico dos meses seguintes ao massacre alemão para apostar na seriedade que os quatro anos até a Copa de 2018 exigiriam. Em sua primeira convocação, sem contar os que ficaram de fora por questões do momento, o número de remanescentes em relação ao último plantel convocado por Felipão chegou a dois dígitos.

O aproveitamento de 100% nos oito amistosos disputados até agora – e pelo menos quatro deles contra seleções respeitáveis, como Colômbia, Argentina, França e Chile – já é um argumento de valor inegável. A lista de virtudes da Seleção, porém, não se resume às aparências que as estatísticas tentam transformar em verdades absolutas.

Com postura competitiva, solidez defensiva e coordenação nos movimentos de ataque, a nova versão do Brasil de Dunga dá sinais de que pode chegar em um patamar mais elevado do que o alcançado em seu trabalho anterior. Em grande parte, obviamente, porque o material humano à disposição do treinador é imensamente mais valioso. Mas também porque o trabalho de montagem de um grupo com repertório está sendo bem feito.

Os jogadores, diferentemente do que aconteceu sob o comando de Scolari, não parecem mais tijolos sem cimento. Eles mesmos, inclusive, sentem-se bastante confortáveis para dizer que o comandante atual é “mais detalhista”. Os desempenhos individuais estão respaldados por algo maior, e não precisam contar com uma elevada dose de sorte em suas combinações para gerar resultados.

É importante ponderar que é justamente neste aspecto em que estão alojadas as principais dúvidas em relação ao escrete canarinho: há organização coletiva, mas daquelas praticamente órfãs de sinais inspiradores. Sem a preocupação de possuir o controle total das ações em campo – o que, para um país cinco vezes campeão do mundo, nada mais seria do que o cumprimento de sua obrigação histórica –, os estágios mais elevados de maturação de uma equipe são alcançados com muito mais rapidez.

Por outro lado, também soa injusto depositar nas costas de Dunga o imenso passivo causado pela tragédia na última Copa do Mundo. A Seleção e a reestruturação do futebol brasileiro são processos que podem e devem caminhar juntos, mas não são um só. Dunga é o que é, e foi contratado pelas mentes não pensantes da nossa confederação nacional para fazer exatamente o que está fazendo.

Da mesma forma que se enganam aqueles mais empolgados, que pensam que vitórias em sequência de Neymar e companhia serão o bastante para superar os desmandos administrativos que fazem o nosso futebol agonizar, também se enganam os pessimistas, convictos de que os nossos muitos e graves problemas estruturais reduzem a quase nada as chances brasileiras em 2018. O fato a se lamentar é que, se vier, tal conquista será construída à base de um futebol muito aquém daquilo que poderia ser.

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Rafael Ribeiro/CBF