Entre épocas

Juventus 1-3 Barcelona - Entre épocas - Getty Images

– O equilíbrio sugerido por uma decisão de Liga dos Campeões entre duas equipes dominantes em seus respectivos países nos últimos anos não apareceu com a prontidão esperada. No quarto minuto, o Barcelona já estava na área da Juventus com cinco jogadores para inaugurar o marcador. Neymar queria que alguns centésimos de segundo passassem para que ele pudesse acionar Iniesta em velocidade, e para isso fintou Barzagli, o substituto de Chiellini. Iniesta queria fazer o que faz de melhor, e para isso serviu Rakitic. Daí para o primeiro gol, uma mera formalidade.

– Os movimentos seguintes ao gol de Rakitic mostraram uma Juventus receosa, com apenas uma ou outra tentativa de ataque, e um Barcelona soberano. Com a ponta direita sendo abandonada por Messi, que organizava a equipe a partir das intermediárias e deixava o corredor livre para Daniel Alves realizar sucessivas ultrapassagens, todas as qualidades ofensivas de seus companheiros eram evidenciadas. A posse de bola chegou a ser de 68%. Se ainda houvesse quem acreditasse que os culés não eram muito mais do que um trio de ataque poderoso, antes mesmo dos 20 minutos não havia mais.

– Com o Barça mais presente no campo de ataque, Vidal afastou-se de Tévez e Morata nas fases defensivas e, assim, colaborou para que a Juve encontrasse gradualmente o equilíbrio do jogo. Com os italianos mais compactados, o domínio territorial catalão deixou de ser algo tão perigoso. O ponto negativo era que, naquele momento, uma defesa consistente ainda estava muito aquém do necessário.

– A metade final do primeiro tempo garantiu uma ida mais tranquila dos bianconeri para o intervalo. A reação ainda não havia passado de um esboço. De concreto, afinal, foram apenas uma marcação sob pressão que dificultava a saída de bola dos defensores rivais e alguns bons ataques cujas finalizações tomaram o rumo errado. Mas já estava claro que o time em desvantagem no placar, que sofria com a excelente atuação de Piqué e a não plenitude do magistral meio de campo formado por Pirlo, Pogba, Marchisio e Vidal, havia encorpado.

– Na segunda etapa, a ânsia italiana na busca pelo empate quase definiu o confronto com 42 minutos de antecedência. Em um contra-ataque fulminante, eram cinco culés contra três adversários correndo de frente para a meta juventina. O passe de Rakitic saiu no momento exato, a finalização de Suárez também não poderia ter sido melhor, mas quem estava lá era Buffon.

– O gol de empate da Juventus foi uma justa coroação para a valentia dos comandados por Massimiliano Allegri, nada simpático à ideia de, uma vez que a desvantagem era mínima e poderia ser dissolvida em uma tentativa de ataque qualquer, não correr riscos. No lance, embora a estranhíssima tentativa de sair jogando de Daniel Alves mereça ser mencionada, o que ficarão de fato na memória são o primoroso passe de calcanhar de Marchisio, a potência física de Lichtsteiner, a presença aguerrida de Tévez e o oportunismo de Morata, autor de três dos últimos quatro gols de sua equipe na Liga dos Campeões.

– A balança da decisão estava pendendo para o lado alvinegro quando Suárez aproveitou o rebote dado por Buffon em uma forte finalização de Messi. O domínio territorial trocava de mãos, e Ter Stegen já era acionado com mais frequência. Mas medir forças contra o time que conta com três dos melhores atacantes do mundo está longe de ser uma missão com grandes chances de sucesso.

– Transcorridos todos os minutos restantes de uma final de alto nível, coube a Neymar confirmar de vez o quinto título europeu da história do Barcelona. Foi o 122º gol do trio MSN em uma temporada histórica, que desperta previsões positivas para os anos que ainda estão por vir até mesmo nos culés menos eufóricos. Aos 23 anos, o brasileiro já foi campeão – com inegável protagonismo e balançando as redes nos dois jogos derradeiros – da Libertadores e da Liga dos Campeões. E ainda há quem duvide de seu potencial.

– Com a certeza de que deixou tudo o que tinha em campo, a Juve encerra a sua aventura continental de cabeça erguida, e sedenta por novas oportunidades para voltar a demonstrar que o domínio em território italiano não é mais o bastante. As baixas que devem ocorrer no elenco tetracampeão nacional são sensíveis, mas a reinvenção pela qual o clube passou na metade final da última década não deixa margens para dúvidas sobre a capacidade bianconera de superar os desafios que irão se apresentar.

10 – Se alguém tivesse dito em janeiro que o Barça seria campeão do Campeonato Espanhol, da Copa da Espanha e da Liga dos Campeões – um feito do futebol mundial alcançado em dose dupla somente pelos catalães, a primeira em 2009 -, seria gentilmente convidado a se internar. A história da temporada 2014-15 se desenhava repleta de crises institucionais, processos judiciais, demissões de ícones diretivos e atritos entre técnico e jogadores, menos de comemorações. Em junho, porém, o mais difícil é duvidar de sua capacidade.

11 – Qualquer comparação entre o Barcelona de Luis Enrique e o de Guardiola soará como o mais retumbante exagero, já que aquele, em meados de seu segundo ano em ação, parou de conversar com os melhores times de sua época e passou a frequentar as mesmas rodas de conversa dos maiores da história. Dentro desta dimensão mais terrena, no entanto, o esquadrão atual não parece ser daqueles que deixará escapar o nível de competitividade alcançado após uma série de desencontros e questionamentos.

e 12 – Sem Xavi, inicia-se oficialmente um novo ciclo na história do clube que mais esteve presente nos sonhos dos apaixonados por futebol no Século 21. Substituir o principal responsável intelectual pelos anos mais vitoriosos de uma equipe e de uma seleção não passa de um devaneio, mas existem alternativas a este modelo que precisam ser encontradas. Alternativas que permitam mudanças em detalhes que, sem alterar a essência do jogo catalão, amenizarão os inevitáveis danos causados pela ausência do camisa 6. Nesta temporada, com Messi, Suárez e Neymar como fatores de desequilíbrio para uma ideia já consolidada, e não como armas que mascaram todos os defeitos coletivos, já foi dado um bom primeiro passo.

Juventus 1-3 Barcelona (06 jun 2015, Estádio Olímpico de Berlim) – final, Liga dos Campeões – Gols: Rakitic, Morata, Suárez e Neymar

Gustavo Carratte, jornalista, é idealizador do Conexão Fut. No Twitter, @GuCarratte

Foto: Getty Images