A história perdida de Di Stéfano

2015 07jul 07 - A história perdida de Di Stéfano - Fernando Mateu - Foto com Kubala

07/07/2015 – Há um ano morria Di Stéfano, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial. Na foto, o gênio argentino (d) está ao lado de László Kubala (e), atacante húngaro e grande amigo, falecido em 2002

Era final de 1974, época em que os campeonatos europeus estavam paralisados para as festividades natalinas, quando um jovem catalão chegou a Barcelona ao lado de seu pai. Crescido no Brasil, ele retornava para a região onde nasceu para um período de testes no Espanyol, tradicionalíssimo clube local. Além dele, vários outros aspirantes a jogador de futebol também seriam avaliados.

Nos primeiros dias do ano seguinte, em uma visita ao Mercat Del Ninot para um aperitivo, o garoto ouviu: “Olhe, Fernando, aquele ali sentado naquela mesa é László Kubala. Vamos até lá, quero que você o conheça”.

Kubala havia sido um atacante impressionante. Natural de Budapeste, capital da Hungria, conheceu de perto os horrores da Segunda Guerra Mundial, que o acompanharam por toda a sua juventude. Saiu da Hungria para a Polônia, terra natal de sua mãe, quando foi convocado para o exército húngaro. Deixou a Polônia em direção à Tchecoslováquia, terra natal de seu pai, quando o mesmo lhe ocorreu por lá. E, pelo fato de também ter sido chamado para o exército tcheco, ainda teve de fugir para a Itália.

Ainda tímido, Fernando apenas observava o seu pai contar a Kubala do prazer que sentia por conhecer um dos principais responsáveis por suas alegrias futebolísticas no início dos anos 50. Pouco depois, ao ser apresentado como atleta das categorias de base do Espanyol, viu-se frente a frente com o lendário atacante húngaro. Os olhos de Kubala fixaram-se nos seus, e o ato foi logo seguido por algumas palavras de carinho ao Espanyol, clube em que ele passou o final de sua carreira. Lá, inclusive, reencontrou-se com o argentino Di Stéfano, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial.

“E como estão os seus treinos, rapaz?”, perguntou. “Os primeiros estão sendo um pouco difíceis”, respondeu o garoto, num tom que misturava doses de insegurança e desabafo, antes de prosseguir: “Eu cresci em um futebol de bola trabalhada no meio de campo, em que as jogadas acontecem de pé em pé, e aqui não é assim. Tive que mudar a minha maneira de jogar, recuando entre os zagueiros para receber a bola e fazer lançamentos, que são a minha principal característica. Até consigo me destacar, mas sinto que faltam mais parceiros para trabalhar a bola antes dela chegar ao ataque”.

O semblante de Kubala ganhava mais vida a cada palavra, e ali estava claro que aquele garoto havia acabado de despertar o interesse genuíno de um homem de quase 50 anos. “É curioso que você faça essa observação”, disse. “Lembrei dos primeiros dias de Di Stéfano em Barcelona. Nós tínhamos uma grande equipe, vencedora, que trabalhava bem a bola, e que ainda por cima me dava ótimas condições para concluir a gol. Ele chegou para me substituir em 1953, quando peguei uma tuberculose, mas a minha recuperação foi muito mais rápida do que o imaginado. Logo nas nossas primeiras conversas já sentimos que éramos jogadores muito semelhantes, e era clara a sensação de que, naquela temporada, apenas um ou outro jogaria como titular. Isso parecia algo irremediável”, lamentou.

Em um jantar na casa de Kubala, porém, Di Stéfano surpreendeu o amigo e todos os seus familiares presentes: “László, acho que tenho a solução. Sempre quis jogar como Adolfo Pedernera jogava no River Plate, combatendo e flutuando entre as intermediárias, organizando o jogo, fazendo o ‘toco y me voy’ do futebol argentino. Ele controlava as ações de um jeito tão absurdo que o número de companheiros de equipe na intermediária ofensiva era cada vez maior. Acho que consigo fazer esse trabalho de maior contato físico. Depois, posso chegar ao ataque para fazermos tabelas e nos aproximar do gol. Podemos tentar?”.

Àquela altura Fernando já sabia que estava ouvindo um relato inigualável de como nasciam os grandes esquadrões, e então perguntou o que havia acontecido quando as ideias foram colocadas em prática. “Foi pura magia”, respondeu Kubala. “Falamos com o nosso treinador, fomos treinar o que Di Stéfano sugeriu e quase não acreditávamos no que acontecia. Parecia que tínhamos dois ou três jogadores a mais em campo. Os nossos gols saíam em sequência”.

O Barça tinha um jogo amistoso marcado contra o Vasco da Gama, um gigante do futebol brasileiro, para poucos dias depois daquele treino. Seria a oportunidade para um teste de verdade. A partida foi uma das mais bonitas que o Estádio Les Corts (anterior ao Camp Nou) já sediou, e a atuação da equipe de Kubala e Di Stéfano foi coroada por arrasadores 6 a 2.

No entanto, não demorou muito mais do que 48 horas para que o mundo culé começasse a ruir. Os relatos do jogo chegaram à capital Madrid, e a proximidade entre Santiago Bernabéu, então presidente do Real, e o ditador Francisco Franco fez com que ganhasse força a ideia de que o já poderoso Barcelona não poderia ser fortalecido por um jogador com a categoria de Di Stéfano. Estava em curso, assim, um projeto para fazer do Real Madrid um clube modelo para a Espanha e toda a Europa.

A legalidade da contratação de Di Stéfano, que vinha das ligas piratas colombianas, passou a ser questionada com toda a truculência que se pode imaginar de um regime ditatorial. Houve a intervenção da Fifa, inclusive, e chegou-se a uma solução “salomônica”: o craque jogaria uma temporada no Real Madrid e outra no Barcelona, alternadamente, pelos quatro anos seguintes.

Enric Martí Carreto, presidente do Barça e grande empresário do setor têxtil, foi coagido a assinar tal acordo para não sofrer represálias do Estado em suas empresas. Houve revolta entre os associados, mas no final das contas o orgulho catalão falou mais alto e o clube desistiu, deixando o caminho livre para que o Real Madrid ficasse com o jogador. Depois de três meses na Catalunha – com apenas três amistosos e nenhum compromisso oficial nos registros –, o sistema de jogo em que Di Stéfano flutuava entre as intermediárias seria implementado no time da capital, e Ferenc Puskás se tornaria o seu novo Kubala.

Daí em diante, nada mais a dizer. Tudo já está nos livros, com o gênio argentino fazendo o seu nome ao mesmo tempo em que despontavam os primeiros capítulos da história de um Real Madrid protagonista no cenário mundial. Uma história que foi escrita pelo cérebro e pelos pés do primeiro jogador de Futebol Total.

Fernando Mateu, catalão de nascença, brasileiro de formação e jogador do Espanyol durante a década de 1970, é o garoto desta história real. Hoje, é escritor do Conexão Fut