A marca indelével de Filpo Núñez

2015 09set 07 - A marca indelével de Filpo Núñez - Nico Galliari

07/09/2015 – Há 50 anos, o Palmeiras se vestia de Brasil para enfrentar o Uruguai. Filpo Núñez, argentino, era o técnico alviverde. E este duelo lhe rendeu uma marca que permanece intacta até hoje: ser o único estrangeiro a comandar uma Seleção Brasileira de futebol

Nélson Ernesto Filpo Núñez tinha apenas 35 anos à época de seu desembarque no Brasil. Havia abandonado ainda muito jovem a sua carreira como jogador, pelo fato de, pouco habilidoso, ter sido obrigado a se acostumar com enormes períodos sem grandes êxitos. Mas tal abandono não tinha absolutamente nada a ver com um eventual desgosto pela bola – era apenas a genuína vontade de, sem precisar chutá-la, permanecer feliz ao lado dela.

O seu início como treinador foi no Independiente Rivadavia, da Argentina. Depois, passou a trabalhar em outros cargos de comissões técnicas de clubes equatorianos (onde alcançou um espaço até mesmo na seleção nacional), chilenos, peruanos, venezuelanos, paraguaios e bolivianos. Até que, em meados dos anos 1950, uma combinação de fatores permitiu o seu primeiro grande salto fora dos gramados.

O marco deve-se a uma amizade construída com Tim, treinador do Bangu, que se encontrava em La Paz, capital da Bolívia, para um giro de amistosos. O argentino trabalhava ali, conduzindo os destinos do Deportivo Municipal, um clube de menos de dez anos de vida, e achou que já era hora de se aventurar no maior país da América Latina. O laço criado com Tim foi o bastante para que o seu rosto começasse a ser conhecido no Brasil, e o respaldo de um currículo de boas referências tratou de embrulhar o seu passaporte em uma embalagem ainda mais atraente.

Núñez decidiu pedir uma chance a José Greco, então presidente do Cruzeiro, e foi aceito. Apesar de não ter obtido grande sucesso em Belo Horizonte – sendo um dos motivos para isso a fase de ouro do pentacampeão estadual Atlético Mineiro (entre 1952 e 1956) –, adquiriu a vivência em solo brasileiro que lhe rendeu as suas oportunidades seguintes, em clubes como Guarani, Atlético Paranaense, Jabaquara, Portuguesa Santista e América de Rio Preto.

Em suas empreitadas, não foram raros os momentos em que, ao se deparar com times mais poderosos, saiu de cabeça erguida, deixando-os em situações apertadas. E um perfeito exemplo desta sua capacidade de liderança e motivação é o confronto entre o seu Jabaquara e o Santos do jovem Pelé, no fim de julho de 1957. O time alvinegro abriu uma boa vantagem, mas o resultado que parecia consumado se dissolveu completamente. Wilson Sório, o Melão, marcou três gols e foi o grande destaque daquela vitória por 6 a 4. Desde então, o placar é capítulo elementar na história do Jabaquara – e colaborou para a escolha de Filpo Núñez como o melhor técnico do estado de São Paulo naquela temporada, em uma eleição realizada por cronistas esportivos.

Com o passar dos anos, Filpo acumulou três títulos (o primeiro, com o Guarani) e alcançou a famosa “Fita Azul”, um título de honra destinado aos clubes brasileiros que voltavam invictos de suas excursões mundo afora. Na ocasião, ele era o comandante da Portuguesa Santista, que viajou por países africanos, como Angola, Moçambique e África do Sul, e trouxe 15 vitórias na bagagem.

Aquela honraria, no entanto, ainda não era o ponto máximo de suas aventuras no futebol. Para isso, ainda precisaria passar por um breve e complicado período no Vasco da Gama – onde, a despeito de sua boa largada, teve de conviver com ameaças e pressões de todas as partes devido a uma sequência de resultados desfavoráveis – e por um longo e monótono período de quase cinco anos sem desafios realmente significativos.

O mar calmo só voltou a ganhar ondas violentas no Palmeiras, ocasião em que Filpo assumiu a responsabilidade de manter ou elevar o nível de um esquadrão campeão paulista em 1963 e vice em 1964. Ele tinha em suas mãos um conjunto de grandes jogadores, com alguns deles já tendo vestido com autoridade a camisa da Seleção Brasileira, e outros que viriam a fazer isso nos anos seguintes. E ali, em um elenco que lhe fornecia a qualidade técnica excepcional ausente em trabalhos anteriores, chegou ao seu ápice.

O ambiente vitorioso começou a se instalar no momento em que houve a primeira faísca de sintonia entre comandante e comandados. Motivador nato e quase sempre lembrado por suas piadas durante os treinamentos, Núñez queria, mais do que qualquer outra coisa, naturalidade. Era uma espécie de obsessão pela derrubada das pressões mentais de seus atletas, a fim de alcançar um estágio que lhes permitiria executar movimentos com muito mais leveza e espontaneidade dentro de campo.

Neste sentido, não há caso mais emblemático do que o de Emerson Leão, que, em uma outra passagem de Filpo Núñez pelo clube, foi informado que receberia um descanso na partida que estava por vir. Titularíssimo e com fome de bola, Leão não gostou da ideia. A conversa não foi exatamente amistosa, e o técnico só revelou a sua real intenção com aquela proposta quando os ânimos de seu atleta estavam prestes a instaurar uma briga entre eles: “É isso aí. É assim que eu gosto. É claro que é você quem irá jogar. Eu só queria saber como estava o seu moral”.

Dentro de campo, o desempenho superlativo de um time interessadíssimo em encantar lhe rendeu a alcunha de Primeira Academia. “Eu sou um entusiasta do futebol ofensivo. Uma equipe pode fazer cinco gols, mas deve criar situações para fazer sete”, dizia. Era um estilo rápido, direto, e cuja definição foi dada em forma de onomatopeias: “Pim, pam, pum… gol”.

O Palmeiras de Filpo Núñez estreou em novembro de 1964, com uma vitória sobre o Santos – e de novo como visitante, a exemplo do que já havia acontecido anos antes, com o Jabaquara. Dali em diante, a evolução acentuada do esquadrão alviverde não poderia resultar em outra coisa senão o título do Torneio Rio-São Paulo de 1965. O Flamengo cortou as asas de uma Academia aspirante ao posto de campeã invicta, mas não passou disso: exceção feita àquele 2 a 1, não houve nenhum outro revés durante toda a competição.

O momento mais marcante daquele time, no entanto, estava reservado para o segundo semestre, quando a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) o convidou para representar o país em um duelo contra o Uruguai. Naquele 7 de setembro de 1965 – dois dias após a inauguração oficial do Mineirão, que ocorreu em uma vitória da Seleção Mineira contra o River Plate, da Argentina –, eram cerca de 80 mil pessoas nas arquibancadas. Tratava-se do encontro de um dos mais envolventes times brasileiros de sua época, que rivalizou com o Santos de Pelé, contra uma seleção já bicampeã mundial, que, além de estar presente na memória dos brasileiros pelo Maracanazo de 15 anos antes, também havia reforçado o seu status de potência futebolística com uma classificação para a Copa de 1966 sem perder uma só partida.

Os 90 minutos não foram tão empolgantes quanto poderiam, o nível de atuação palmeirense tampouco fez com que os presentes se encantassem, mas o triunfo por 3 a 0 foi categórico e incontestável. Rinaldo abriu o placar em uma cobrança de pênalti, Tupãzinho ampliou com um chute forte e, de média distância, Germano fechou a conta. No dia em que a Seleção Brasileira foi mais verde do que amarela, não havia um só motivo capaz de fazer os brasileiros acreditarem que não estavam bem representados.

“Até hoje fico pensando naquele jogo”, diz Ademir da Guia. “Os mais jovens precisam saber da existência dele e se sentirem orgulhosos. O Palmeiras um dia foi Brasil. Isso ninguém mais irá apagar”. O que também ninguém mais irá apagar é que o treinador argentino converteu-se, assim, no único estrangeiro a comandar a Seleção Brasileira em toda a sua história – algo evidentemente superior à experiência de Jorge Gomes de Lima, o Joreca, português de Lisboa que, cerca de duas décadas antes, já havia sido o assistente do técnico Flávio Costa em duas oportunidades. Não à toa, Filpo Núñez declarou que, dali em diante, sentia-se “como se não tivesse mais nada para fazer no futebol”.

Pouco mais de um mês depois do confronto, uma pequena sucessão de maus resultados pôs fim à sua primeira passagem pelo Verdão. Alguns jornalistas sentenciaram que Filpo havia perdido o respeito diante de parte de seus jogadores, o que seria fruto das muitas concessões que ele próprio fazia para que a rotina de trabalho não fosse algo tão extenuante e estressante.

Pelos anos seguintes, a sua característica nômade foi reforçada em níveis absurdos. Foram dezenas e dezenas de trocas de clubes, passando tanto por agremiações brasileiras de grande, médio e pequeno porte – como Corinthians, um retorno ao Cruzeiro, o próprio Palmeiras, Coritiba, Sport Recife, Galícia, entre muitos outros – ou por equipes estrangeiras – como os argentinos Atlanta e Vélez Sarsfield, o português Leixões, o espanhol Badajoz e o mexicano Monterrey. Em 1986, no Fabril de Lavras, uma cidade localizada ao sul de Minas Gerais, deu fim à sua carreira como técnico profissional.

Talvez por essa falta de identificação, por ter pulado de galho em galho sem marcar época em algum lugar específico, Núñez acabou no ostracismo. Todo o dinheiro que ganhou foi torrado em jogos de azar, e os seus últimos anos de vida foram no carente bairro do Heliópolis, em São Paulo, onde colaborou com o projeto “Jerusalém Ação Social”.

Em 6 de março de 1999, antes de completar 79 anos, Filpo Núñez faleceu. Deixou órfãs as crianças que eram treinadas por ele e o admiravam; um centro esportivo com o seu nome, localizado na Rua Freire Brayner, atrás de um distrito policial; e uma história memorável – cheia de altos e baixos, naturalmente, mas com uma marca indelével. Depois de 50 anos, o argentino segue como dono solitário de um espaço na história da seleção nacional mais vitoriosa do planeta. Filpo Núñez permanece único.

Nico Galliari é escritor do Cultura Redonda. No Twitter, @nico92galliari

Foto: Arquivo/Folhapress