O que me ensinou Eduardo Galeano

2016 04abr 13 - O que me ensinou Eduardo Galeano

13/04/2016 – Hoje, completa-se exatamente um ano do falecimento de Eduardo Galeano – o escritor uruguaio que deixou órfãos milhares de apaixonados por futebol

Antes de ler Eduardo Galeano, eu não sabia nada de futebol. Sabia de jogadores, de jogadas e de regras, mas não de futebol – e existem aqueles que perguntarão o que mais há para se saber. Talvez pareça absurdo acreditar que há algo além da maravilhosa descrição que nos dão os dicionários quando buscamos em suas páginas o significado deste esporte. “É o jogo de duas equipes de onze jogadores cada uma”, dizem, “cuja finalidade é fazer com que a bola ultrapasse a linha do gol adversário de acordo com regras determinadas, das quais a mais característica é que se não pode tocá-la com as mãos nem com os braços”.

Uma definição limpa, concisa, clara e informativa da mecânica do esporte mais praticado no planeta. E este é o conhecimento padrão a que me refiro – esse entender meia-boca desta modalidade que tanto nos apaixona. Um esporte que move os corações de milhões de pessoas pelo mundo, que nos faz viver com intensidade cada jogada certa ou equivocada. Nada do que dizem essas quarenta e oito palavras define esse não-sei-o-quê que descola da bola a razão, que nos faz perder a cabeça, que nos faz suar, que nos enche de vilezas e de virtudes, que nos move erraticamente ou nos guia inexoravelmente até as profundezas das emoções vivíssimas que se encontram em nós mesmos. Nada do que o futebol realmente nos faz sentir pode ser definido por essa sentença acadêmica.

Antes de Galeano, eu não entendia nada disso. Não entendia, não me emocionava, não sofria e, obviamente, não escrevia. Eu não era capaz de juntar nem duas linhas sequer sobre algum clube ou alguma torcida. Algumas vezes cheguei a me ver refletido nos olhos marejados de meu pai, que recordava da final da Liga dos Campeões de 1992, em Wembley, quando o seu time do coração havia conquistado aquilo que há tanto tempo almejava. Mas eu não entendia nada. A minha lógica dizia que a bola havia entrado e fim. Era o seu dever. Nada mais. Naquele dia, porém, a minha família se reuniu para jantar. Eles viveram uma emoção em comum. Sentiram juntos, choraram juntos. E agora, depois de tanto tempo, posso entendê-los. Depois de ler Galeano, é mais simples. Ele me ensinou a ver que palavras como “sentimento” e “amor” podiam se juntar a outras, como “cores” e “bola”. E essa “maravilhosa capacidade do futebol de surpreender”, como ele dizia, ainda me fez chorar alguns anos depois, desta vez por outra conquista, e também junto ao meu pai.

É porque o futebol não é apenas bola, gramado e jogadas. O futebol é de quem o sente e o que se sente. E disso Galeano sabia muito. De sentir. De querer olhar a vida pelo prisma da sensibilidade, do real e do emocional. Deste sentimento que nos torna fiéis a um esporte pelo qual descobrimos estar apaixonados – ainda que, ano após ano, ele esteja cada vez mais distante do que era em nossos primeiros dias, quando ainda éramos crianças e nos reuníamos em um parque qualquer com uma bola. Como dizia o mestre, “a indústria faz tudo para castrar a nossa energia de felicidade”. Ainda assim, seguimos em frente, inabaláveis, ao lado deste esporte que nos beija a alma. Do mesmo modo que o próprio Galeano costumava beijar este esporte por meio das palavras e das linhas que em seus livros ilustravam o amor que ele mesmo sentia. Palavras que o beijavam do mesmo modo que os toques de Zidane ou de Pirlo. Que o entendiam com a mesma clareza que Guardiola demonstra entender. E que o representavam com a mesma fidelidade que o silêncio do Maracanã, em 1950, quando Ghiggia fuzilou a rede defendida por Barbosa.

Galeano nos ensinou ao definir o futebol como algo maior do que um simples esporte. É um elemento social e humano, e carregado de sentimentos. Em cada jogada se encerra algo que em pouquíssimas ocasiões foi tão bem definido como nas palavras deste uruguaio, o escritor da beleza e da miséria do futebol. Soube ver mais do que se podia ver e espalhou pelo mundo a necessidade de seguir a trajetória da bola muito além das redes. De ver que a cada lance de gol há pelo menos dez mil vozes lamentando ou celebrando, onze jogadores rendidos e outros onze vitoriosos, e que existe uma história por trás de cada um deles. Que em bancos de reservas e em vestiários, embora a “indústria” tente corromper a todos, ainda sobrevive aquele espírito de bater bola em um parque. Que, atrás dos péssimos hábitos e da violência, atrás desta infinidade de regras e de trapaças, existe uma voz que nos sussurra que o futebol pode levar milhões de pessoas até uma Copa do Mundo, unindo-nos em uma só voz, ainda que estejamos a centenas de quilômetros uns dos outros. Que o futebol é um motor de mudanças, um poderoso fenômeno social, do qual todos devemos cuidar.

É graças a isso que somos capazes de vibrar e suar como aqueles que jogam. De relembrar que, por mais que ele esteja em constante mudança, o futebol é muito mais do que apenas uma bola rolando. Que há histórias vivas e mortas, e que todas elas merecem ser contadas. Neste sentido, Eduardo Galeano ainda vive. O seu legado permanece. Seguiremos todos falando sobre o que ele amava e, justamente por isso, nos ensinou a amar, entender e definir melhor. Porque é preciso deixar claro que, sem todos os valores deixados por ele ao futebol e aos apaixonados por este esporte, esta homenagem não teria sido possível. Sem ele, entenderíamos da pior maneira possível como esse motor pode movimentar mais do que uma bola até uma meta qualquer. Antes de ler Galeano, eu não sabia quase nada.

Miguel Ángel Ruiz é escritor do Sphera Sports. No Twitter, @MigRuizRuiz